O Bangers Open Air 2026 começou explodindo. Se as edições anteriores serviram para plantar a semente, este ano o festival colheu os frutos de uma maturidade impressionante, consolidando-se como uma parada obrigatória no calendário mundial do metal. Logo nas primeiras horas de sábado, o Memorial da América Latina já era tomado por um mar de camisas das diferentes bandas que tocariam no dia, e fãs enfrentavam filas quilométricas, tanto na entrada quanto nos pontos de bebidas.
O sol não deu trégua, mas a organização parece ter aprendido lições valiosas. Este ano, a presença de diversos pontos de hidratação espalhados pelo evento foi um alento vital para os "meros mortais" que precisavam repor as energias entre um mosh e outro. Outro ponto que mostrou uma logística refinada foi a distribuição do merchan oficial: em vez de concentrar tudo em um ou dois lugares, o festival espalhou pelo menos quatro pontos de venda pelo Memorial, facilitando a vida de quem queria garantir uma lembrança sem perder o show favorito.
Para os músicos de plantão e curiosos, o festival trouxe uma experiência imersiva com o estande do canal Amplifica. O espaço, liberado com instrumentos para o público fazer um som, transformou-se em um palco alternativo de interação. Foi o toque de comunidade que faltava para deixar o ambiente ainda mais acolhedor.
O que se viu neste primeiro dia foi um festival nitidamente mais cheio do que nos anos anteriores. A sensação de "casa cheia" era palpável, e a tendência é clara: o Bangers está em uma curva de crescimento imparável.
Korzus
Como em todas as edições passadas, a banda de abertura sempre esteve encarregada de aquecer a galera e, desta vez, para iniciar os trabalhos do sábado e do palco Ice, o Korzus foi a banda escolhida. Logo cedo, a fila monumental que se dobrava pelos arredores do Memorial já antecipava que ninguém queria perder o pontapé inicial. Ao meio-dia em ponto, sob um sol que já castigava sem piedade, o quinteto subiu ao palco para um público impressionante, que já ocupava boa parte do local, provando que, para o fã de thrash metal, não existe cansaço quando a "instituição" está em cena.
A energia do Korzus parece ignorar a passagem do tempo, impulsionada agora por uma linha de frente renovada e devastadora nas guitarras. A oficialização de Jean Patton, que já vinha dominando o palco com o grupo, somada à chegada de Jéssica Falchi, trouxe um vigor técnico absurdo. Jéssica agregou precisão e brilho aos solos, que casaram perfeitamente com a agressividade característica da banda, enquanto Jean mantém a pegada de riffs que são verdadeiros murros no estômago. Ver essa dupla em ação no gigantismo do Bangers é a certeza de que o legado da banda está em mãos — e dedos — fenomenais.
No repertório, a intensidade foi mantida no limite máximo. "Discipline of Hate" foi uma verdadeira pedrada, fazendo o Memorial tremer e as primeiras rodas se abrirem. Outro ponto alto foi a execução da nova "No Light Within", que, ao vivo, ganha uma dimensão ainda mais sombria e pesada, mostrando que a safra atual de composições do grupo mantém o mesmo veneno de décadas atrás. É impossível não reverenciar os “old school” da banda, Marcello Pompeu e Dick Siebert, que comandam o espetáculo com uma vitalidade invejável, parecendo mais jovens e famintos pelo palco do que nunca.
Toda essa engrenagem é movida por um motor implacável: Rodrigo Oliveira. Assistir a Rodrigo na bateria é entender por que ele é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores bateristas do Brasil e do mundo; sua técnica e força física sustentam a muralha sonora do Korzus. O fechamento não poderia ser outro senão com a icônica "Correria". Foi a finalização perfeita para um show que não apenas abriu o sábado, mas estabeleceu um padrão de entrega que poucas bandas conseguem atingir.
Setlist: Korzus no Bangers Open Air
1. Guilty Silence
2. Discipline of Hate
3. Catimba
4. No Light Within
5. Agony
6. Victim of Progress
7. Mass Illusion
8. P. F. Y. L.
9. Never Die
10. What Are You Looking For
11. Truth
12. Correria
Evergrey
A transição da atmosfera densa do estúdio para a amplitude do palco do Bangers Open Air foi o cenário em que o Evergrey reafirmou sua posição como um dos pilares do metal progressivo moderno. Para quem teve a oportunidade de ver o quinteto sueco pela primeira vez, o impacto foi avassalador. A banda impressiona não apenas pela técnica cirúrgica, mas pela capacidade rara de infundir cada nota com um sentimento profundo e genuíno, provando que virtuosismo e emoção podem caminhar lado a lado em perfeita harmonia.
A execução foi impecável do início ao fim, mantendo o público hipnotizado pela densidade sonora. No centro dessa engrenagem está Tom S. Englund, cuja voz carrega uma honestidade brutal que parece ressoar ainda mais forte em grandes espaços. Ao lado dele, o entrosamento nas guitarras com Henrik Danhage sustenta o equilíbrio perfeito entre peso e melodia. É fascinante observar como eles traduzem a sofisticação de suas músicas para o ambiente de um festival, criando uma experiência sensorial em que o domínio técnico nunca se sobrepõe à mensagem emocional, mas a potencializa em hinos como "Weightless" e "Eternal Nocturnal".
A sustentação sonora foi garantida pela precisão milimétrica de Johan Niemann no baixo e pela energia de Simen Sandnes na bateria, enquanto as camadas atmosféricas dos teclados de Rikard Zander deram a profundidade necessária para que o som não se perdesse no ar. Músicas como "The World Is on Fire" e o encerramento com "OXYGEN!" mostraram uma banda no topo de sua forma, entregando um show que mexe tanto com a cabeça quanto com o coração.
Infelizmente, o grande “porém” da apresentação foi a percepção do tempo. Mesmo com uma sequência poderosa de dez canções, para um show com tanta carga emocional e técnica, o tempo de palco pareceu curto demais. O Evergrey saiu de cena consagrado, tendo conquistado definitivamente quem os via pela primeira vez, provando que é uma força da natureza que, independentemente do relógio, consegue manter a essência de sua arte intacta e profundamente poderosa.
Setlist: Evergrey no Bangers Open Air
1. Falling From the Sun
2. Where August Mourn
3. Weightless
4. The World Is on Fire
5. Eternal Nocturnal
6. Call Out the Dark
7. King of Errors
8. Architects of the New Weave
9. Leaving the Emptiness
10. OXYGEN!
Feuerschwanz
Se o Evergrey trouxe o peso do sentimento, o Feuerschwanz trouxe a redenção através da festa. O que se viu no palco do Bangers foi um dos momentos mais divertidos e visualmente impactantes de todo o festival. A estreia dos alemães em solo brasileiro não foi apenas um show, foi um espetáculo de medieval folk metal carregado de energia, performances teatrais e uma dose cavalar de bom humor que transformou o Memorial da América Latina em uma imensa taverna a céu aberto.
A banda domina a arte de entreter. Entre coreografias, o uso de instrumentos tradicionais e uma presença de palco avassaladora, o Feuerschwanz provou que é possível fazer metal de altíssima qualidade sem perder a leveza. Momentos como "Berzerkermode" e "Bastard von Asgard" mostraram o lado épico e pesado do grupo, mas foi na interação com o público que eles realmente ganharam o jogo.
O ápice cômico e de conexão com a plateia aconteceu durante o cover de "Dragostea din tei" (original do O-Zone). Sabendo muito bem que nós, brasileiros, temos a icônica versão "Festa no Apê", do Latino, a banda não perdeu a chance de brincar. Ver os músicos trocando olhares e dizendo uns aos outros no palco “eu disse que eles conheciam essa música!”, enquanto o público cantava em êxtase, foi impagável. Eles claramente fizeram a lição de casa sobre a nossa cultura pop, e esse toque de malícia e inteligência cênica fez toda a diferença.
Encerrar com a sequência de "Valhalla" e "Das Elfte Gebot" selou o destino da banda no coração dos brasileiros. O Feuerschwanz entregou um show impecável, em que o virtuosismo técnico se vestiu de armadura e bom humor para garantir que ninguém ficasse parado. Saíram de cena consagrados como os grandes “animadores” do sábado, deixando uma trilha de sorrisos e a certeza de que o folk metal, quando feito com esse nível de profissionalismo e alegria, é imbatível.
Setlist: Feuerschwanz no Bangers Open Air
1. Drunken Dragon
2. Memento Mori
3. Untot im Drachenboot
4. Knightclub
5. Bastard von Asgard
6. Name der Rose
7. Ultima Nocte
8. Testament
9. Berzerkermode
10. Dragostea din tei (O‐Zone cover - com referência a "Festa no Apê")
11. Valhalla
12. Das Elfte Gebot
Jinjer
Se o sábado precisava de um xeque-mate, o Jinjer entregou uma partida inteira de mestre. Para muitos (e me incluo nessa lista sem pensar duas vezes) foi o melhor show do dia, uma experiência que redefine o que esperamos de uma banda de metal moderno. Foi a minha primeira vez vendo os ucranianos ao vivo, e a sensação é de quem acabou de testemunhar algo histórico e já está contando os dias para a próxima oportunidade.
O centro das atenções, inevitavelmente, foi Tatiana Shmayluk. É difícil descrever a perfeição de sua performance sem parecer exagero, mas a verdade é que ela dominou o Memorial da América Latina com uma facilidade assustadora. O contraste visual e sonoro foi um espetáculo à parte: vestida como uma verdadeira princesa, com um vestido rosa, Tatiana subverteu qualquer expectativa estética ao alternar, com técnica impecável, entre uma voz limpa angelical e guturais que pareciam vir de outra dimensão. Vê-la comandar o palco com tanta autoridade e agressividade vocal foi hipnotizante.
A complexidade de músicas como "Vortex" e a explosão de "Pisces" (que, como esperado, foi um dos momentos mais ovacionados do set) mostraram uma banda no auge de seu entrosamento. Do baixo estalado e técnico de Eugene Abdukhanov à bateria cirúrgica de Vlad Ulasevich, tudo soou cristalino, mesmo nos momentos de maior caos sonoro.
Encerrar com a porrada de "Sit Stay Roll Over" foi o golpe final em um público que já estava completamente rendido. O Jinjer não apenas tocou; deu uma aula de como ser técnico, pesado e incrivelmente carismático ao mesmo tempo. Tatiana e companhia saíram do palco sob uma ovação mais do que merecida, deixando a certeza de que o trono do metal progressivo contemporâneo tem donos muito bem estabelecidos.
Setlist: Jinjer no Bangers Open Air
1. Duél
2. Green Serpent
3. Fast Draw
4. Vortex
5. Disclosure!
6. Tantrum
7. Teacher, Teacher!
8. Hedonist
9. Perennial
10. Someone's Daughter
11. Pisces
12. Sit Stay Roll Over
Black Label Society
Quando o Black Label Society assume o palco, o que se vê não é apenas um show de metal, mas a manifestação de uma cultura própria. Zakk Wylde, com sua silhueta icônica de viking moderno misturado com um motoqueiro, sobe ao palco emanando uma autoridade que poucos músicos possuem, transformando o Memorial da América Latina em um verdadeiro templo.
A abertura com "Funeral Bell" e "Name in Blood" serviu para ajustar os níveis de distorção e mostrar que a banda estava em um dia de inspiração técnica absurda. Zakk não é apenas um mestre dos harmônicos, sua marca registrada, mas um guitarrista que entende a dinâmica do espetáculo. Ao lado dele, o guitarrista Dario Lorina provou ser o braço direito perfeito, segurando as bases com uma precisão cirúrgica e permitindo que Zakk realizasse suas tradicionais exibições de virtuosismo.
Um dos pontos mais comentados do show foi a conexão emocional com o legado de Zakk. A inclusão de "No More Tears", clássico imortal de Ozzy Osbourne, foi um momento marcante, em que a voz do público muitas vezes encobriu o sistema de som. Mas a verdadeira alma da apresentação residiu em "In This River". Zakk assumiu o piano sob banners gigantes em homenagem a Dimebag Darrell e Vinnie Paul, criando um oásis de melancolia e respeito em meio à agressividade sonora. Essa dualidade entre o "bruto" e o "sentimental" é o que torna o BLS uma entidade tão respeitada no cenário mundial.
A cozinha rítmica formada pelo baixista John "JD" DeServio e pelo baterista Jeff Fabb entregou um groove avassalador, especialmente em faixas como "Suicide Messiah" e na nova "Set You Free". O som estava denso e preenchia cada espaço do festival. Para fechar com chave de ouro, a banda reservou "Stillborn", talvez seu maior hino, encerrando o set com grande estilo.
Mesmo para quem não é adepto do estilo, é impossível negar que o Black Label Society entregou um dos shows mais profissionais do sábado, reafirmando que, quando o assunto é o "suco do riff pesado", Zakk Wylde ainda é o rei absoluto.
Setlist: Black Label Society no Bangers Open Air
1. Funeral Bell
2. Name in Blood
3. Destroy & Conquer
4. A Love Unreal
5. Heart of Darkness
6. No More Tears (Ozzy Osbourne cover)
7. In This River (Dedicada a Dimebag Darrell & Vinnie Paul)
8. The Blessed Hellride
9. Set You Free
10. Fire It Up
11. Suicide Messiah
12. Ozzy’s Song (Dedicada a Ozzy)
13. Stillborn
Tankard
Se o sábado precisava de um banho de thrash metal tradicional, os alemães do Tankard entregaram um verdadeiro “choque de lúpulo”. Para a ala old school do festival, essa era uma das apresentações mais aguardadas, e o quarteto de Frankfurt não decepcionou: foi um show matador, cru e com um peso que parecia dobrar a potência do palco Sun Stage.
Houve um detalhe que chamou a atenção: a iluminação. O Sun Stage estava envolto em uma penumbra que dificultava a visão nítida dos músicos. No entanto, essa “escuridão” acabou jogando a favor da estética da banda. Parecia uma escolha deliberada para manter o clima o mais rústico e agressivo possível, como se estivéssemos em um porão esfumaçado na Alemanha dos anos 80, onde o que importa é o riff, e não os holofotes. O Tankard no Bangers 2026 foi a definição de honestidade sonora.
No comando da bagunça organizada estava o incansável Andreas “Gerre” Geremia. Mesmo sob a pouca luz, sua silhueta energética era inconfundível, correndo de um lado para o outro e regendo os mosh pits com a autoridade de quem praticamente inventou o “alcoholic metal”. A cozinha rítmica entregou aquele “skank beat” acelerado que é a marca registrada do thrash alemão, fazendo faixas como "Need Money for Beer" e "Beerbarians" soarem como hinos de guerra para os sedentos de plantão.
No meio de toda aquela energia caótica, o público resolveu elevar o patamar da insanidade e trouxe um elemento visual que parecia saído direto dos estádios europeus. Em um dos momentos mais intensos do set, um sinalizador foi aceso bem no epicentro de uma roda gigante, tingindo o mosh pit de vermelho e criando uma cena digna de um videoclipe de thrash dos anos 80.
O encerramento foi uma sequência de clássicos que não deixou ninguém parado. A trinca final com "Chemical Invasion", "Zombie Attack" e, claro, a obrigatória "(Empty) Tankard" foi o ápice. A banda saiu de cena deixando o público exausto e realizado, provando que, mesmo sem grandes produções de luz, a força bruta dos alemães apaixonados por thrash e cerveja é suficiente para derrubar qualquer palco.
Setlist: Tankard no Bangers Open Air
1. One Foot in the Grave
2. The Morning After
3. Ex-Fluencer
4. Rapid Fire
5. Need Money for Beer
6. Die With a Beer in Your Hand
7. Beerbarians
8. A Girl Called Cerveza
9. Chemical Invasion
10. Zombie Attack
11. (Empty) Tankard
Arch Enemy
O encerramento monumental do palco Hot Stage no sábado não poderia ter outro nome: Arch Enemy. A banda sueca, que já possui uma relação de amor com os brasileiros, foi recebida com um fervor que parecia querer abalar as estruturas do Memorial da América Latina. Como headliner, entregou um espetáculo avassalador, provando que o trono do death metal melódico continua muito bem guardado, mesmo diante de uma das mudanças mais significativas de sua história recente.
O grande ponto de interrogação da noite, que rapidamente se transformou em uma exclamação de triunfo, foi a estreia da nova vocalista, Lauren Hart. Vê-la assumir o centro do palco e dominar a massa com tamanha autoridade foi um evento à parte. Sua voz é de uma potência assustadora. A cada verso gutural, ela parecia “levantar pesos” com facilidade hercúlea, projetando uma força vocal que preenchia cada centímetro do festival sem o menor sinal de esforço. O público brasileiro não poupou elogios e aplausos, e a reação foi tão intensa que a vocalista chegou a se emocionar genuinamente no palco, ficando visivelmente sem jeito diante da ovação massiva que recebeu.
Musicalmente, o Arch Enemy operou como uma máquina de guerra. Michael Amott continua sendo o mestre das melodias memoráveis, mas o destaque técnico também recaiu sobre o guitarrista Joey Concepcion. O entrosamento entre os dois atingiu o ápice em momentos como a introdução de "Snow Bound", em que Joey entregou um solo carregado de feeling, servindo de prelúdio perfeito para a reta final do show. Músicas como "Blood Dynasty" e "Dream Stealer" foram recebidas com a mesma energia dos hinos mais antigos.
O setlist foi uma jornada equilibrada, visitando diferentes eras da banda com uma fluidez impressionante. "Ravenous" e "War Eternal" mantiveram a temperatura no limite máximo, enquanto a grandiosidade de "The Eagle Flies Alone" e "No Gods, No Masters" criou momentos de conexão total com a plateia.
O encerramento com a icônica "Nemesis" foi o golpe de misericórdia em um público que já estava completamente rendido. O Arch Enemy no Bangers 2026 não apenas cumpriu seu papel de headliner, mas elevou o sarrafo para o que um show de metal moderno deve ser. Foi uma noite de renovação, deixando a certeza de que a nova era da banda começou com o pé direito. Lauren Hart não apenas ocupou um posto: reivindicou seu lugar como a nova soberana do palco, saindo do Memorial consagrada por uma das audiências mais apaixonadas do planeta.
Setlist: Arch Enemy no Bangers Open Air
1. Yesterday Is Dead and Gone
2. The World Is Yours
3. Ravenous
4. War Eternal
5. Dream Stealer
6. To the Last Breath
7. Blood Dynasty
8. My Apocalypse
9. Bury Me an Angel
10. The Eagle Flies Alone
11. No Gods, No Masters
12. I Am Legend
13. Dead Bury Their Dead
14. Snow Bound (com intro de solo de guitarra do Joey)
15. Nemesis





