COBERTURA - Party on Wacken: Que Vire Tradição!


Texto: Lênin Zanovelli

No último sábado, 18 de abril, a Audio Club entrou para a história com uma celebração que conectou o Brasil a outros 35 países. O
Party on Wacken, em comemoração aos 35 anos do festival alemão e servindo de aquecimento oficial para o Bangers Open Air, não foi apenas um evento de Metal, foi um manifesto de poder das bandas nacionais.


The Mist
O primeiro degrau dessa ascensão foi ocupado pelo The Mist. Vindo de Belo Horizonte com a bagagem de quem ajudou a fundar as bases do Thrash nacional, o grupo transformou a tarde paulistana em um cenário sombrio. Assim que as luzes se apagaram e os telões foram dominados por imagens de corvos, a atmosfera mudou. A banda iniciou o set com “The Tempest”, provando que a sofisticação e o peso podem caminhar lado a lado. O som da Audio favoreceu a proposta, permitindo que cada detalhe das guitarras e o peso do baixo fossem sentidos no peito.

A performance de Korg é incrível e merece ser destacada. Fora o carisma e o sentimento de gratidão que tomou conta dele, ele tem uma presença de palco que flerta com o teatral e conduziu o público por clássicos da banda como
“Peter Pan Against The World” e “The Hangman Tree”. Sua expressividade, aliada a um vocal que mantém a rispidez característica, deu uma aura mística à apresentação. O The Mist não se apoiou apenas no saudosismo, o material do novo álbum, The Dark Side Of The Soul, mostrou uma banda que ainda tem muito a dizer, explorando nuances melódicas dentro de um Thrash Metal extremamente técnico.

Musicalmente, o grupo apresentou uma coesão impressionante. O entrosamento entre os músicos permitiu que faixas como
“Over My Dead Body” soassem como rolos compressores, enquanto momentos mais soturnos traziam um ar quase gótico à agressividade. A escolha do repertório foi cirúrgica, equilibrando a velocidade dos anos 80 com a profundidade das composições atuais.

Ao encerrar com
“(Lungs) – Death Is Alive Inside Me”, o The Mist deixou claro que a escola mineira continua sendo uma referência mundial de autenticidade. Eles pavimentaram o caminho com classe e brutalidade, entregando o palco em chamas para o próximo degrau da noite. Foi um show que lavou a alma dos fãs mais antigos e apresentou a força da banda para as novas gerações.

Setlist:
The Tempest
Curse
Peter Pan
Over My Dead
[Face] - Name + Number = Namber
The Enemy
The Hangman Tree
The Dark Side of the Soul
Geppetto's Song
My Inner Monster
(Lungs) - Death Is Alive Inside Me



The Troops of Doom
O segundo degrau dessa escada foi ocupado pelo The Troops of Doom. O grupo subiu ao palco com a autoridade de quem carrega o DNA do metal extremo brasileiro em sua forma mais pura. Já nos primeiros acordes de “Act I – The Devil’s Tail”, a Audio Club testemunhou uma explosão de energia. O som da banda é uma homenagem viva à era de ouro do gênero, mas executado com uma precisão e uma força que só músicos experientes e focados conseguem entregar.

A presença de Jairo Guedz no palco traz uma carga histórica imensa. Ver um dos arquitetos do som que colocou o Brasil no mapa mundial do Metal tocando com tamanha paixão é inspirador. O show foi pontuado por homenagens sinceras à nossa história, com clássicos do Sepultura como
“Bestial Devastation” e “Morbid Visions” sendo celebrados como hinos de uma nação. Jairo fez questão de exaltar todos os envolvidos no festival e saudar a presença de veteranos como Paulo Xisto Jr. na plateia.

Alex Kafer, no baixo e vocal, é um frontman incansável. Sua voz ríspida e sua capacidade de comandar a massa foram fundamentais para os “mosh” que tomaram conta da pista. Músicas autorais como
“Far from Your God” e o material do novo disco A Mass To The Grotesque mostraram que a banda não vive de passado, eles têm um arsenal de riffs novos que são tão letais quanto os clássicos. O momento do “Wall of Death” em “The Confessional” foi o ápice, provando que a banda sabe exatamente como manipular a energia do público para atingir o clímax da agressão.

Encerrar com a faixa homônima
“The Troops of Doom” foi o desfecho perfeito para um show que transbordou técnica e peso. A bateria de Alexandre Oliveira e as guitarras dobradas de Jairo e Frank “Blackfire” criaram uma parede sonora que parecia intransponível. O grupo saiu de cena sob uma ovação genuína, tendo elevado a barra de intensidade da noite a um nível que exigiria muito das bandas seguintes.

Setlist
The Troops of Doom:
Act I - The Devil's Tail
Chapels of the Unholy
Far from Your God
Bestial Devastation (Sepultura cover)
Act II - The Monarch
The Rise of Heresy
Denied Divinity
Morbid Visions (Sepultura cover)
The Confessional
Dethroned Messiah
Dawn of Mephisto
Troops of Doom (Sepultura cover)



Korzus
Chegamos ao ponto de maior expectativa da noite, pelo menos pra mim que estou escrevendo. o Korzus. Este não foi apenas mais um degrau, foi um salto quântico de energia. Celebrando mais de 40 anos de uma estrada pavimentada com suor e integridade, o grupo apresentou ao público a sua nova formação, e o resultado foi nada menos que avassalador. A entrada de Jessica Falchi e Jean Patton nas guitarras não apenas preencheu o palco, mas injetou uma voltagem nova que parecia emanar de cada nota. O entrosamento técnico e visual desse novo time trouxe um frescor que o Metal brasileiro presenciou.

Jessica Falchi é uma revelação no palco do Korzus. Sua performance é uma mistura rara de técnica cirúrgica, carisma e uma postura que exala “Heavy Metal”. Seus solos, executados com precisão e muita alma, trouxeram um brilho diferenciado aos clássicos. Ao seu lado, Jean Patton garantiu uma base moderna e esmagadora, mostrando por que é um dos guitarristas mais respeitados da sua geração. Enquanto o telão exibia a trajetória histórica da banda, os novos integrantes mostravam que o futuro do Korzus é agora. A estreia ao vivo de
“No Light Within” foi o momento em que a nova era foi batizada com sangue e distorção, sendo recebida como um clássico instantâneo.

No comando de tudo, o eterno maestro
Marcelo Pompeu. Chegando aos 60 anos com a disposição de quem está no seu primeiro show, Pompeu regeu a Audio com uma autoridade inquestionável. Ele soube equilibrar momentos de pura agressividade com pausas para agradecer a lealdade dos fãs, dedicando músicas e celebrando a cena. A participação de May Puertas (Torture Squad) em “Discipline of Hate” foi um dos momentos mais vibrantes da noite, simbolizando a união das gerações e a força das bandas que estarão no Bangers Open Air. Pompeu é a prova de que o tempo só refina quem tem o Metal como ideologia de vida.

O final do set foi uma sequência de nocaute. Faixas como
“Guerreiros do Metal” e a indispensável “Correria” transformaram a Audio em um caos controlado, com o público agachando e pulando sob o comando de Pompeu. O Korzus provou que é possível honrar quatro décadas de história enquanto se abraça o novo com coragem. Saíram do palco com a certeza de que são, hoje, uma das bandas mais potentes e modernas do gênero no mundo. Foi um show memorável, que deixou claro: o Korzus não está apenas de volta; eles estão em sua melhor forma, prontos para qualquer desafio global.

Setlist
Guilty Silence
Truth
Raise Your Soul
Catimba
No Light Within (Estreia ao vivo)
Agony
Victim of Progress
Vampiro
Discipline of Hate (Participação: Mayara Puertas)
Never Die
What Are You Looking For
Guerreiros do Metal
Correria

Krisiun
Para o degrau final, no topo da nossa escada de intensidade, subiu o Krisiun. Quando as luzes se apagaram para receber o trio, a atmosfera na Audio atingiu ápice. A banda não dá espaço para sutilezas, o que se segue é um ataque ininterrupto de Death Metal técnico e veloz. Abrindo com “Kings of Killing”, o Krisiun mostrou por que é a maior exportação do Metal extremo brasileiro, entregando uma performance que beira o desumano em termos de velocidade e precisão.

O setlist foi um desfile de brutalidade, passando por marcos como
“Scourge The Enthroned” e “Combustion Inferno”. Alex Camargo, com sua voz cavernosa e presença imponente, manteve o público em estado de alerta constante, exaltando a ideologia do Metal underground. O entrosamento entre os três irmãos é algo que só décadas de estrada e sangue compartilhado podem construir. O “mosh” durante o show do Krisiun foi, sem dúvida, o mais insano da noite, refletindo a fúria que emanava do palco.

A técnica individual dos músicos foi um espetáculo à parte. Max Kolesne na bateria é um fenômeno da natureza, mantendo ritmos de pedal duplo que parecem metralhadoras, enquanto Moyses Kolesne exibe um virtuosismo na guitarra que mistura velocidade absurda com um feeling sombrio. Os solos individuais serviram para mostrar que, mesmo após uma turnê exaustiva, a banda não aceita entregar menos do que 100%. Eles tocaram com uma fúria renovada, como se cada show fosse o último de suas vidas, reforçando o convite para que todos estivessem presentes no Bangers para o próximo round.

O encerramento com o hino
“Black Force Domain” selou a noite com chave de ouro e sangue. O Krisiun levou a escada de intensidade ao seu limite máximo, deixando a Audio em um estado de exaustão e êxtase absoluto. Ao final, a sensação era de que tínhamos testemunhado o que há de melhor no Metal mundial, vindo diretamente das nossas terras. O Party on Wacken provou que a cena brasileira é uma potência imparável e que o Bangers Open Air receberá bandas que estão no topo absoluto de sua arte. Que venha o festival, porque o espírito do Metal foi devidamente renovado nesta noite histórica.

Setlist
Kings of Killing
Scourge of the Enthroned
Combustion Inferno
Vicious Wrath
Hatred Inherit
Necronomicon
Blood of Lions
Serpent Messiah
Messiah's Abomination
Descending Abomination
Drum Solo
Guitar Solo
The Will to Potency
Black Force Domain


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