O Paura lançou ontem (31) Primitive Chaos, o nono álbum da sólida carreira que encontra no próprio título a chave para entender suas músicas: um disco minimalista, pesado e construído para retirar camadas até chegar ao que considera essencial no hardcore.
Ouça aqui: ditto.fm/primitive-chaos.
Primitivo, aqui, não significa olhar para trás ou reproduzir uma época. É uma busca pelo estado bruto da música, antes do excesso de acabamento, das distrações e das mediações.
Guitarras, baixo, bateria e voz voltam a cumprir uma função imediata: produzir impacto, movimento e oposição. Ritmo e corpo aparecem antes do ornamento. A mensagem precisa chegar sem precisar atravessar muitas portas.
É também uma conexão com a potência dos primórdios do hardcore, quando velocidade, peso e concisão serviam menos como convenções de gênero e mais como ferramentas para reagir ao mundo.
“Primitive Chaos” parte dessa pulsação para construir um disco atual, sem a intenção de sofisticar aquilo que funciona justamente pela força direta.
“Na nossa visão, é um disco primitivo, mesmo. É bem mais dinâmico, atual e no ponto certo que queríamos”, comenta o Paura.
O álbum sucede “Karmic Punishment”, de 2023, concebido em um período em que ainda era necessário compreender os efeitos de um mundo atravessado pela pandemia. Se naquele disco havia um processo de assimilação do que havia acontecido, “Primitive Chaos” trabalha de outra maneira: não tenta organizar o caos antes de responder a ele. A reação vem primeiro.
Essa ideia atravessa também “Sarcastic Sadistic”, primeiro single apresentado nesta nova fase. Crua e direta, a música antecipou um álbum em que o Paura prefere retirar elementos a acrescentá-los. O minimalismo não diminui o peso. Faz o contrário: deixa menos lugares para que ele se esconda.
Para o vocalista Fabio Prandini, o disco nasce justamente desse choque entre um mundo tecnologicamente cada vez mais elaborado e comportamentos humanos que continuam ligados a impulsos muito mais antigos.
“Hoje entregamos nosso novo disco, ‘Primitive Chaos’, pro mundo. Entregamos não. Devolvemos. Porque ele veio do mundo, foi feito do mundo. É do mundo! Feito com raiva e amor”, afirma.
A ideia de devolução é central. “Primitive Chaos” absorve contradições externas e as transforma em música sem tentar suavizá-las. “Nas dificuldades, encontramos nossa facilidade. Na era das tecnologias, encontramos a brutalidade do ser. Individual e coletivamente. Na crueldade, encontramos a raiva. Na raiva, encontramos luz. Na superficialidade do ódio, encontramos a vergonha. Na profundidade do amor, encontramos sabedoria”, diz Prandini.
Há, portanto, algo deliberadamente elementar no disco: transformar estímulo em reação, tensão em ritmo, indignação em movimento. É o hardcore entendido novamente como música de oposição, feita para atingir primeiro o corpo e depois permanecer como mensagem.
“Esperamos que identifiquem a transparência das nossas verdades nele. Esse álbum é pra todos nós”, completa o vocalista.
Em “Primitive Chaos”, o Paura não procura o primitivo como passado. Procura aquilo que permanece depois que o excesso é retirado.





