Em entrevista concedida à jornalista Leanne Daly, na histórica Studio 2 de Abbey Road, Paul McCartney falou sobre o processo criativo de seu novo álbum, The Boys of Dungeon Lane, relembrou momentos marcantes ao lado de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, além de comentar sua participação no próximo disco dos Rolling Stones.
Logo no início da conversa, McCartney destacou a emoção de retornar a Abbey Road, estúdio onde construiu grande parte de sua trajetória ao lado dos Beatles. Segundo ele, cada visita ao local desperta lembranças específicas das gravações clássicas da banda.
“Há memórias por toda parte. Consigo lembrar exatamente de certas sessões, de vocais do John ou de momentos específicos das gravações. É um lugar muito especial para mim”, comentou.
Um álbum voltado para as memórias
Embora inicialmente não tivesse a intenção de criar um disco nostálgico, McCartney percebeu, ao revisar as músicas concluídas, que grande parte delas abordava acontecimentos do passado.
Segundo o músico, escrever sobre juventude, relacionamentos e experiências marcantes é algo natural, já que esse período representa uma fonte inesgotável de inspiração. Ele também admitiu que a ausência de John Lennon e George Harrison torna essas lembranças ainda mais emocionais.
“Quando penso em Liverpool, inevitavelmente penso em John e George. O fato de eles não estarem mais aqui torna tudo mais intenso emocionalmente.”
A relação com John Lennon
Questionado sobre a responsabilidade de retratar John Lennon em suas canções, Paul afirmou que nunca encarou isso como uma obrigação.
Ele citou a faixa 'Days We Left Behind', que relembra os primeiros encontros dos dois em Liverpool, explicando que prefere escrever sobre Lennon como um amigo próximo, e não como uma figura histórica.
McCartney também voltou a comentar o período turbulento do fim dos Beatles, quando Lennon passou a criticá-lo publicamente.
Segundo ele, as declarações foram dolorosas na época, mas, com o passar do tempo, passou a enxergar aquilo apenas como parte da personalidade de John.
“Era irritante e machucava, mas depois percebi que aquilo era simplesmente o John sendo o John. Quando ele não gostava de algo, ele dizia.”
O músico revelou ainda a importância da reconciliação entre os dois antes da morte de Lennon, especialmente após os conflitos empresariais que marcaram a separação dos Beatles.
As aventuras com George Harrison
Entre as memórias revisitadas no álbum está 'Down South', inspirada em viagens de carona feitas por McCartney e George Harrison antes da fama.
Paul acredita ter sido o responsável por sugerir as aventuras, descrevendo-se como alguém naturalmente mais inclinado a planejar novas experiências.
As viagens ajudaram a fortalecer a amizade entre os dois e criaram lembranças que permaneceram durante toda a trajetória dos Beatles.
Ele também recordou uma viagem feita ao lado de John Lennon quando ambos eram jovens. A ideia era chegar à Espanha utilizando caronas, mas os dois acabaram parando em Paris e gastando todo o dinheiro disponível antes de seguir viagem.
O dueto inédito com Ringo Starr
Um dos destaques de The Boys of Dungeon Lane é a faixa Home to Us, que conta com participação de Ringo Starr na bateria e também nos vocais.
McCartney explicou que escreveu a música especialmente pensando no ex-companheiro de banda após ouvir uma gravação de bateria feita por Ringo para o produtor Andrew Watt.
A canção fala sobre a infância em Liverpool e apresenta algo inédito na história dos Beatles: um verdadeiro dueto vocal entre Paul e Ringo.
“Nós nunca tivemos algo assim nos Beatles. Nunca houve um dueto específico entre dois integrantes daquela forma. Por isso achei muito especial.”
Segundo Paul, a música reflete a realidade de uma geração que cresceu no pós-guerra, em condições simples, mas cercada de fortes laços familiares e comunitários.
Os shows sem celulares
Durante a entrevista, McCartney também comentou uma recente série de apresentações no pequeno clube The Fonda, em Los Angeles.
Os shows adotaram um sistema que bloqueava o uso de celulares durante as apresentações, permitindo que o público acompanhasse o espetáculo sem gravar vídeos.
Para o músico, a experiência recriou a atmosfera dos antigos concertos.
“Era como nos velhos tempos. As pessoas estavam realmente assistindo ao show, e eu podia observar suas reações. Criou uma conexão muito especial.”
Paul destacou ainda que apresentações menores permitem maior interação com a plateia e uma liberdade maior para alterar o repertório durante o show.
O futuro da carreira
Mesmo aos 84 anos, McCartney afirmou que ainda não pensa em aposentadoria.
Ele lembrou que já ouviu perguntas semelhantes quando completou 50 anos e ressaltou que continua encontrando prazer tanto em compor quanto em se apresentar ao vivo.
Segundo ele, a sensação de criar uma música permanece exatamente a mesma de décadas atrás.
“Você pega um violão, não existe nada ali, e algumas horas depois existe uma canção completa. Isso continua sendo mágico.”
Tocando com os Rolling Stones
Um dos momentos mais curiosos da entrevista aconteceu quando Paul falou sobre sua participação no próximo álbum dos Rolling Stones.
O músico revelou ter gravado duas faixas para dois discos diferentes da banda durante uma mesma sessão de estúdio e descreveu a experiência como extremamente empolgante.
Mesmo após décadas de carreira, ele admitiu ter ficado impressionado ao trabalhar ao lado de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood.
“Eu estava pensando: estou tocando com os Stones. Ali está o Mick. Ali está o Keith. Foi realmente emocionante.”
McCartney contou que observou de perto Keith Richards desenvolvendo riffs e Ronnie Wood construindo solos durante as gravações, algo que considerou fascinante.
Segundo ele, a principal preocupação era simples: tocar o baixo corretamente e não cometer erros.
“Você precisa respeitar o som dos Stones. Não pode exagerar. Tem que tocar o groove certo e deixar que eles sejam os protagonistas.”
Ao final, Paul afirmou que continua encontrando satisfação criativa nas mesmas coisas que o motivavam quando era jovem: compor músicas, tocar para o público e descobrir novas formas de se conectar emocionalmente por meio da arte.
“Escrever uma canção ainda me dá o mesmo sentimento de realização de sempre. Espero que isso nunca mude.”





