A música de Erasmo Carlos voltou ao centro das discussões culturais por meio de um projeto que une diferentes gerações do hip-hop brasileiro em releituras de canções marcantes do artista. Mais do que um álbum comemorativo pelos 85 anos do Tremendão, o trabalho abriu espaço para reflexões sobre contestação, liberdade artística, herança musical e a força de um compositor que segue dialogando com o presente.
Durante coletiva de imprensa, produtores, músicos e convidados revelaram detalhes da criação do projeto, discutindo como a obra de Erasmo sempre esteve conectada à cultura urbana e periférica, muito antes de um álbum de rap existir oficialmente.
A conexão natural entre Erasmo e o rap
A conversa começou com uma coincidência simbólica. Um dos participantes contou que estava ouvindo o podcast “Mano a Mano”, apresentado por Mano Brown, quando percebeu referências a nomes como Jorge Ben Jor, Carlos da Fé e o próprio Erasmo Carlos.
A lembrança serviu para reforçar uma percepção compartilhada entre todos os envolvidos: o universo de Erasmo já fazia parte do DNA da música negra, urbana e periférica brasileira.
Segundo eles, quando surgiu a ideia de aproximar o repertório do cantor do hip-hop, muitos reagiram com surpresa. Mas, intuitivamente, a conexão fazia sentido. Havia um elo invisível entre artistas de diferentes épocas, todos movidos pela mesma inquietação artística.
“Parecia que todo mundo fazia parte da mesma turma, do mesmo pensamento, mesmo sem conviver tanto”, comentou um dos participantes.
A influência da Black Music nos anos 70
A coletiva também mergulhou no período pós-Jovem Guarda, quando diversos artistas brasileiros passaram a absorver referências do soul, funk e da chamada Black Music brasileira.
Foram citados nomes como Eduardo Araújo, que lançou discos profundamente influenciados pelo gênero no começo dos anos 70, além de músicos como Hyldon, que circulavam naquele ambiente criativo.
Dentro desse cenário, Erasmo aparecia como um verdadeiro “caldeirão musical”. Criado na Tijuca, no Rio de Janeiro, ele cresceu ouvindo rádio compulsivamente, absorvendo referências que iam de boleros e cantores românticos até vocal groups americanos, big bands, blues, soul e rock’n’roll.
Além disso, o cantor era apaixonado por cinema e consumia trilhas sonoras e filmes constantemente, algo que influenciou diretamente sua percepção musical.
“Ele era um cara que ouvia de tudo. Isso deu uma formação musical impressionante para ele”, destacou um dos produtores.
Samba-rock, bailes e periferia
Outro ponto importante levantado foi a forte relação da obra de Erasmo com o samba-rock. Canções como “Maria Joana” e “Coqueiro Verde” se tornaram frequentes nos bailes suburbanos paulistas, aproximando naturalmente sua música da cultura periférica.
Segundo os participantes, o samba-rock surgiu justamente nesses bailes de São Paulo antes de se espalhar pelo Brasil, tendo Jorge Ben Jor e Bebeto como referências importantes.
Essa ligação ajudou a fortalecer a ideia de que o repertório de Erasmo já dialogava com universos semelhantes ao do rap muito antes do projeto existir.
“Erasmo não era apenas o parceiro do Roberto”
Durante a conversa, os participantes fizeram questão de reforçar a independência artística de Erasmo Carlos.
Segundo eles, existe uma percepção equivocada de que o cantor era apenas o parceiro de Roberto Carlos. Para quem conhece sua discografia, porém, a assinatura musical de Erasmo é imediatamente reconhecível.
“Todo mundo que conhece música identifica quando uma canção tem a cara do Erasmo”, disseram.
A autenticidade do compositor foi, inclusive, um dos fatores que mais chamou atenção dos artistas do rap convidados para o álbum. Muitos deles usaram palavras como “independência”, “originalidade” e “personalidade” para descrever o artista.
Contestação, amor e o diálogo com o rap
Questionados sobre a escolha do rap para celebrar os 85 anos de Erasmo, os produtores explicaram que o principal motivo foi a afinidade temática.
As músicas selecionadas pertencem justamente ao período mais contestador da carreira do artista, marcado por críticas sociais, reflexões urbanas e inquietações existenciais.
Para eles, existe uma ligação direta entre essa fase do compositor e a essência do hip-hop.
“O rap é visceral, assim como aquela fase do Erasmo nos anos 70”, afirmou um dos envolvidos.
Ao mesmo tempo, fizeram questão de lembrar que a obra do cantor nunca se limitou à contestação política. O amor sempre foi um tema central em suas composições, muitas vezes misturado à própria rebeldia.
“Tem música ali em que amor e contestação aparecem no mesmo verso”, resumiram.
Sem inteligência artificial: voz original preservada
Um dos temas mais discutidos foi o uso da tecnologia no projeto.
Os produtores explicaram que nenhuma inteligência artificial foi utilizada para recriar ou modificar a voz de Erasmo. Todo o material vocal veio diretamente das gravações originais preservadas pela gravadora, com acesso aos canais separados de voz, guitarra, bateria e demais instrumentos.
“É a voz que ele gravou décadas atrás”, explicaram.
Essa preservação foi considerada essencial para manter a presença do artista intacta dentro das novas versões.
“A única orientação dada aos rappers era: não percam o Erasmo de vista. É um dueto com ele”, disseram.
Como foram escolhidos os rappers e as músicas
Os responsáveis pelo álbum também revelaram detalhes do processo de seleção das faixas e dos convidados.
Segundo eles, cerca de 12 músicas foram previamente escolhidas antes da distribuição para os artistas. A ideia era encontrar combinações naturais entre repertório e personalidade de cada rapper.
Em muitos casos, a associação parecia inevitável.
Criolo, por exemplo, já era imaginado automaticamente em “Gente Aberta”, enquanto “Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” parecia ter sido feita para Mano Brown.
Alguns artistas pediram segunda opção de faixa, mas a maioria aceitou imediatamente a sugestão recebida.
“Parecia que a música escolhia a pessoa”, disseram.
Erasmo ouvia Racionais MC’s
Durante a coletiva, os participantes também revelaram que Erasmo demonstrava interesse genuíno pelo rap e chegou a ouvir Racionais MC's.
Segundo eles, o cantor admirava a profundidade das letras e a força da mensagem transmitida pelo grupo.
“Como compositor, ele ouvia uma música tentando entender o que o artista queria dizer”, explicaram.
Espaço para contestação em tempos de algoritmo
Questionados sobre o espaço da música contestadora na era dos algoritmos e playlists segmentadas, os participantes afirmaram que o próprio sucesso atual do rap prova que ainda existe demanda por esse tipo de arte.
“Os artistas de rap estão muito fortes, cada hora aparece alguém incrível e essas pessoas estão sendo ouvidas”, comentou um dos produtores.
Ao mesmo tempo, eles destacaram que o público consegue identificar quando algo é genuíno ou apenas oportunista.
“O rap não foi usado como verniz moderno para o Erasmo. Ele já era moderno naturalmente”, afirmaram.
Relação de Erasmo com novas gerações
Outro tema recorrente foi a abertura constante de Erasmo para trabalhar com artistas mais jovens.
Os produtores lembraram que o cantor sempre buscou dialogar com novas gerações da música brasileira, compondo com nomes como Tim Bernardes, Nando Reis, Samuel Rosa e Arnaldo Antunes.
Uma das histórias mais emocionantes contadas na coletiva envolveu justamente Tim Bernardes. Ao descobrir que havia ficado de fora de um projeto relacionado à cantora Alaíde Costa, Erasmo ligou reclamando em tom bem-humorado e sugeriu imediatamente que Tim se tornasse seu parceiro em uma música.
A colaboração acabou acontecendo e se transformou em uma das últimas gravações ligadas ao artista ainda em vida.
Homenagens futuras serão feitas “com propósito”
Os envolvidos também deixaram claro que não pretendem transformar o legado de Erasmo em uma sequência excessiva de tributos.
Segundo eles, cada projeto precisa existir por uma razão artística real.
“Não adianta fazer homenagem só por fazer. Tem que ter verdade, propósito e conexão”, disseram.
A ideia é continuar celebrando a obra do cantor de maneira orgânica, respeitando o tempo de maturação de cada iniciativa.
“Ele queria ser lembrado por meio da música”
O momento mais emocionante da coletiva aconteceu quando o filho de Erasmo afirmou que falar sobre a obra do pai se tornou sua principal missão.
Segundo ele, o cantor sempre dizia que queria ser lembrado através de suas canções.
“Tudo o que eu faço hoje é para preservar a música dele”, afirmou.
Ele também destacou a importância de ter conseguido realizar muitos projetos ainda em vida ao lado do pai, incluindo filme, livro, discos e diferentes homenagens.
“O maior presente foi ele ver tudo acontecendo enquanto estava aqui”, disse.
Participações emocionadas reforçam a dimensão do legado
O encerramento da coletiva trouxe depoimentos emocionados de artistas envolvidos no projeto.
Um dos convidados destacou a honra de dividir faixa com Tássia Reis e afirmou que Erasmo fazia parte das memórias afetivas de sua família.
Outro lembrou que é impossível falar sobre música brasileira sem reconhecer a importância do Tremendão.
“Ele atravessou gerações e continua presente até hoje”, disseram.
Mais do que um disco de releituras, o projeto acabou se transformando em um encontro entre diferentes épocas da música brasileira, todas conectadas pela mesma essência de liberdade artística, autenticidade e paixão pela canção que sempre definiu a trajetória de Erasmo Carlos.
O disco, que chegou nas plataformas de streaming hoje, dia 22 de maio, como parte das homenagens ao Tremendão – que no dia 5 de junho faria 85 anos –, propõe uma escuta de uma fase específica de sua obra. No início da década de 1970, Erasmo já havia deixado para trás a moldura juvenil da Jovem Guarda e passava a cantar inquietações adultas, desordem social, amor e liberdade. Era também um momento de transformação pessoal. Como observa Léo Esteves, filho e empresário do cantor, o recorte do projeto acompanha o período em que ele “casou, se tornou pai, veio de São Paulo para o Rio, teve contato com as drogas, que expandiram sua percepção sobre o que estava vivendo” e em que sua obra passou a retratar esse novo universo.
“A gente queria uma coisa mais legal e mais criativa do que simplesmente um disco de remixes”, conta Marcus. “Então pensei: ‘Por que não pegar essas faixas e dar pra galera do rap abrir, pegar os instrumentos e rimar a partir dessas bases?’. É algo da própria linguagem do rap. Era um formato que respondia a essa preocupação do Léo de manter a canção do Erasmo e tinha o elemento novo de pensar como rap, com uma cabeça de dueto, não de remix”.
A voz de Erasmo permanece como núcleo, enquanto Emicida, Dexter, Budah, Xamã, Rael, Tasha & Tracie, Marcelo D2, Criolo e Tássia Reis criam novas entradas para as músicas. “Fiquei pensando que daria para eles e elas trazerem o discurso do início dos anos 1970 para este momento”, lembra Marcus, que vê paralelos entre o que Erasmo cantava naqueles discos, em meio à eclosão da contracultura, e os dias de hoje. “A gente está vivendo umas coisas muito parecidas com aquele período. Aquele pensamento do Erasmo que tinha um desejo de quebrar a caretice daquela época, faz sentido hoje também, porque agora estamos tentando resistir à caretice que está tentando voltar”.





