O clima no Espaço Unimed, na noite do último 29 de abril, era de êxtase puro e carregado de nostalgia. Após a despedida de Fabio Lione no festival Bangers Open Air, São Paulo recebeu, mais uma vez, um evento que muitos consideravam um sonho distante: a reunião da formação que, há 25 anos, provou que o Angra era imortal.
É verdade que o Espaço Unimed apresentou algumas falhas técnicas, como ruídos de cabos, oscilações nos telões e microfones que pareciam não querer colaborar em certos momentos. No entanto, esses detalhes, que fogem à alçada da banda, tornaram-se irrelevantes diante da magnitude do que acontecia no palco.
O Domínio de Alirio Netto
A noite começou com a potência da formação atual. Alirio Netto, acompanhado por Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli, Bruno Valverde e Marcelo Barbosa, abriu o set com os clássicos “Nothing to Say” e “Angels Cry”. Alirio, com uma técnica absurda e um carisma que preenche cada canto da casa, mostrou que não está ali para substituir ninguém, mas para escrever seu próprio capítulo. Ao encarar “Tide of Changes - Part I & II”, músicas antes imortalizadas na voz de Lione, trouxe uma interpretação mais teatral, respeitando as melodias, mas entoando passagens de forma a dar sua própria assinatura.
Em “Lisbon”, a melancolia tomou conta do show. Alirio conduziu a canção com uma suavidade que fez justiça à composição, enquanto, em “Vida Seca”, a fusão étnica e o peso progressivo mostraram o entrosamento construído nos últimos anos pela banda. O momento de tirar o fôlego veio com o cover de “Wuthering Heights”, dedicado ao maestro Andre Matos. Alirio alcançou as notas estratosféricas com uma facilidade que remeteu à pureza angelical necessária para a obra e, como se isso já não fosse o suficiente para arrancar aplausos, ainda assumiu o piano.
O show seguiu com “Carolina IV”, um presente épico para os fãs, com os ritmos brasileiros fazendo o Espaço Unimed vibrar. O primeiro grande destaque individual veio com o solo de bateria de Bruno Valverde. É impressionante observar como ele funde a complexidade do metal com um groove brasileiro, preparando o terreno para o que viria a seguir. Músicas como “Make Believe” e “Waiting Silence” (esta última, para a surpresa de muitos, cantada por Alirio Netto em vez de Edu Falaschi) ressoaram como hinos, preparando o público para a transição mais aguardada da noite.
O Reencontro com o Legado
O palco escureceu novamente e, nesse momento, a memória resgatou o anúncio da nova formação da banda em 2001. No dia 15 de março daquele ano, o Angra apresentou ao mundo sua nova fase, trazendo Edu Falaschi, Aquiles Priester e Felipe Andreoli para se juntarem a Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. Foi o dia em que a fênix renasceu das cinzas ou, melhor dizendo, a deusa do fogo. Na mitologia tupi-guarani, Angra é associada à deusa do fogo, da metalurgia e da transformação. Agora, 25 anos depois, foi possível presenciar esse reencontro histórico.
Antes da banda entrar, o telão exibiu imagens marcantes dessa formação. O suspense foi construído com maestria: os músicos se posicionaram lado a lado no palco escuro, permitindo que o público visse apenas suas silhuetas, até que a luz explodiu e a loucura tomou conta. A formação da “Nova Era” estava entre nós.
“Nova Era” foi disparada como uma metralhadora. A técnica de Aquiles Priester permanece intacta, com um bumbo duplo (executado com precisão quase sobre-humana) que dita a pulsação do power metal, enquanto as dobras de guitarra entre Kiko e Rafael soaram como se nunca tivessem parado de tocar juntos. Edu Falaschi entregou uma performance carregada de emoção. Em “Millennium Sun” e “Acid Rain”, sua voz trouxe à tona a nostalgia de uma geração que cresceu ouvindo Rebirth. Houve uma entrega mútua entre palco e plateia em “Heroes of Sand”, uma das músicas mais marcantes do disco. “Unholy Wars” e a faixa-título “Rebirth” consolidaram essa segunda parte do show. Edu, com sua interpretação passional, e Kiko, com seu virtuosismo de outro planeta, provaram que a química de 2001 é algo que o tempo não apaga.
A técnica atingiu seu ápice com o solo de bateria de Aquiles Priester. Observá-lo dominando seu kit gigantesco é entender por que ele se tornou uma referência mundial. O show seguiu com “Judgement Day” e “Running Alone”, mas, quando o álbum se aproximava do fim, veio a surpresa: a última faixa, “Visions Prelude”, não foi executada. Em seu lugar, Edu anunciou um dos momentos mais descontraídos da noite, pedindo para que o público acendesse as luzes dos celulares durante “Bleeding Heart”. A canção ainda ganhou um trecho de “Agora Estou Sofrendo”, versão em português eternizada pelo Calcinha Preta, levando os fãs ao delírio.
Diferente do que se viu no festival, aqui houve tempo para respirar. Edu Falaschi estava em estado de graça, transbordando carisma e interagindo profundamente com a plateia. Em um momento simbólico, perguntou quem nunca tinha visto aquela formação ao vivo e a resposta veio em uma verdadeira floresta de mãos levantadas, representando uma nova geração que vivia seu próprio “Rebirth”. Em um gesto de reconhecimento, Edu também chamou Alirio Netto de “irmão”, destacando a honra de vê-lo dando continuidade à história da banda.
Para encerrar essa segunda parte do show em alta intensidade, a banda explorou diferentes nuances de sua trajetória. A execução de “Ego Painted Grey” resgatou o lado mais denso e moderno de Aurora Consurgens. Na sequência, a velocidade tomou conta com “Spread Your Fire”, um dos maiores hinos de Temple of Shadows. A performance foi um verdadeiro turbilhão de energia e técnica.
O Maestro e a União Final
O final do show foi um verdadeiro exercício de superação emocional. Rafael Bittencourt, sozinho com seu violão, entregou uma versão acústica e íntima de “Reaching Horizons”, cantando com o coração na ponta dos dedos. Mas o golpe final na saudade veio com a introdução de “Silence and Distance”. No telão, imagens de Andre Matos cantando em Tóquio, em 1997, preencheram o vazio deixado pelo tempo. O piano do maestro ecoou e, logo, Alirio e Edu entraram juntos, dividindo os vocais em um tributo que uniu todos sob a bênção do fundador.
O encerramento se aproximava e, mais uma vez, Alirio e Edu dividiram os microfones em “Late Redemption”. Para a surpresa de muitos, Alirio assumiu os vocais iniciais da música, originalmente interpretada por Falaschi no álbum. Após uma montanha-russa de emoções, beirando quase três horas de show, finalmente chegou o momento da despedida. “Carry On” deu início ao adeus, e ver todos os músicos, Alirio, Edu, Rafael, Kiko, Marcelo, Felipe, Aquiles e Bruno, juntos no palco foi a imagem definitiva da noite.
Independentemente dos bastidores ou das engrenagens contratuais que viabilizam reuniões como esta, o veredito final sempre vem da emoção de quem está na plateia. No fim das contas, quem sai ganhando é o fã, presenteado com uma autêntica máquina do tempo sonora. São momentos raros como esse que permitem resgatar a intensidade da infância ou adolescência, revisitar memórias que pareciam adormecidas e celebrar a trilha sonora que marcou alguns dos capítulos mais importantes de nossas vidas.
SETLIST HISTÓRICO: ESPAÇO UNIMED
1. Nothing to Say (Alirio)
2. Angels Cry (Alirio)
3. Tide of Changes - Part I & II (Alirio)
4. Lisbon (Alirio)
5. Vida Seca (Alirio)
6. Wuthering Heights (Alirio - Dedicada a Andre Matos)
7. Carolina IV (Alirio)
8. Drum Solo (Bruno Valverde)
9. Make Believe (Alirio)
10. Waiting Silence (Alirio)
11. Nova Era (Edu)
12. Millennium Sun (Edu)
13. Acid Rain (Edu)
14. Heroes of Sand (Edu)
15. Unholy Wars (Edu)
16. Rebirth (Edu)
17. Drum Solo (Aquiles Priester)
18. Judgement Day (Edu)
19. Running Alone (Edu)
20. Bleeding Heart (Edu)
21. Ego Painted Grey (Edu)
22. Spread Your Fire (Edu)
23. Reaching Horizons (Rafael Bittencourt - Acústico)
24. Silence and Distance (Intro Andre Matos Tóquio 97 / Alirio & Edu)
25. Late Redemption (Alirio & Edu)
26. Carry On (Todos no palco)





