Não era o início dos anos 2000, mas, por algumas horas, pareceu. No palco do Cine Joia, em São Paulo, a banda Cachorro Grande ressurgia diante de um público ansioso, pronto para revisitar memórias e, ao mesmo tempo, testemunhar um novo capítulo. Formada por Beto Bruno (voz), Marcelo Gross (guitarra), Gabriel Azambuja (bateria), Pedro Pelotas (teclados) e com a participação de Eduardo Barreto (baixo), a banda gaúcha marcou seu retorno definitivo com a Tour 26, que além da nostalgia, abre caminho para material inédito a ser lançado próximo do fim do ano.
A noite começou com Matheus Torres, responsável por aquecer o público com seu pop rock de atmosfera leve e letras introspectivas. Em cerca de 30 minutos, com canções do álbum “Tanta Pressa”, ele estabeleceu o clima ideal enquanto o Cine Joia gradualmente se enchia.
Pouco depois das 22h, a energia mudou de patamar. Ao som de violinos, Beto Bruno surgiu no palco com uma garrafa de vinho, sua fiel companheira ao longo da apresentação, e assumiu o comando com intensidade. Erguendo o pedestal do microfone como um troféu, incendiou a plateia, que respondeu à altura ao entoar em coro “Você Não Sabe o Que Perdeu”. A guitarra visceral de Marcelo Gross e a bateria firme de Gabriel Azambuja estabeleceram o tom: um show entre a catarse e a celebração, equilibrando nostalgia e entrega absoluta.
Com “Hey Amigo” e “Desentoa”, a banda manteve a troca intensa com o público, sustentando uma energia que dificilmente cairia dali em diante. Em um breve momento de interação, Beto Bruno perguntou o que a plateia queria ouvir, em meio a uma avalanche de pedidos, anunciou a próxima música com a promessa de que “As próximas horas serão muito boas”.
Em “Bom Brasileiro”, fiel ao seu estilo irreverente, declarou estar “cagando por futebol” antes de propor uma imersão em “meia hora de rock psicodélico pra queimar a cabeça”. Sentado à frente da bateria, com a garrafa em mãos, deixou que a banda conduzisse um momento instrumental denso e hipnótico.
Ao relembrar apresentações anteriores no Cine Joia, Beto anunciou o próximo passo, informando que a banda retorna ao fim do ano com músicas inéditas, gravadas em junho. O set seguiu com “Debaixo do Chapéu”, “O Que Você Tem?”, “Dia Perfeito” e “Lili”, em um bloco que sintetizou bem o espírito da noite. Entre vocais cambaleantes, solos afiados e momentos quase íntimos, com o vocalista sentado no chão ou observando os colegas de canto, o show ganhou ares de encontro entre amigos. O palco virou sala de estar, o espetáculo, uma roda de rock’n’roll compartilhada.
Em “Sinceramente”, Matheus Torres voltou ao palco para dividir os vocais em um dos maiores clássicos da banda, levando o público a um coro uníssono e emocionante. Já na reta final, “Sexperienced” elevou novamente a intensidade ao máximo, enquanto e deixou aquele gosto inevitável de quero mais. Após a pausa estratégica, ainda houve tempo para “Lunático”, fechando a noite sob o delírio dos fãs.
O retorno da Cachorro Grande não poderia ser mais simbólico, com um show empolgante e caótico na medida certa, onde a energia crua do palco encontrou a cumplicidade de um público fiel. Mais do que revisitar o passado, a banda sinaliza um futuro promissor com a promessa de um novo álbum de inéditas ainda este ano. Um retorno, sem dúvida, à altura de sua própria história.





