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Há encontros artísticos que parecem planejados pela própria lógica misteriosa da música . Colaborações que não obedecem a agendas, calendários ou estratégias de carreira, mas que surgem como uma espécie de correção de rota. Criolo, Amaro & Dino pertence a essa rara categoria: um álbum que não nasceu de um plano, mas de um instante. Um “chega aí, estamos no estúdio”, dito de forma inesperada via WhatsApp. Um quase acaso. E, talvez por isso, carrega a força das coisas inevitáveis.
O ponto de partida foi Lisboa. A cidade onde as histórias da diáspora africana se sedimentam em camadas visíveis e invisíveis serviu como território neutro e, ao mesmo tempo, altamente carregado. Ali, enquanto Criolo e Dino d’Santiago desenvolviam um projeto inédito, o pianista brasileiro Amaro Freitas apareceu em estúdio. O encontro levou horas, e dessas horas, emergiu “Esperança”, canção que rapidamente escapou das mãos de seus criadores, ganhou vida própria e foi nomeada ao Latin Grammy. A história poderia ter terminado ali. Não terminou.
Embora gravado entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, o álbum soa como se nascesse de um único território. Um país que não existe no mapa, mas sim na memória coletiva de todos os que nele participaram. Para chegar até ele, basta fechar os olhos e seguir os sopros de Henrique Albino, que cruzam o disco como trilhas de vento; deixar o corpo ceder aos beats assinados por Criolo, Holly, Seiji sempre em diálogo com as batidas ancestrais; perceber como o piano de Amaro não apenas ocupa espaços, os reinventa; e ouvir as vozes que se alternam como múltiplas versões de uma mesma consciência.
Há canções que parecem crônicas, como “E Se Livros Fossem Líquidos?”, cujo imaginário literário se derrama em metáforas políticas. Outras funcionam como encontros comunitários, como em “Você Não Me Quis”, com a participação das Clarianas, ou “Menina do Côco de Garipé”, onde rabeca, coro e percussão evocam heranças que antecedem o próprio conceito de Brasil.
Sons de Cabo Verde emergem, não como exotismo, mas como um dos vértices deste triângulo. A verve poética de Criolo puxa o ritmo para o concreto, enquanto a espiritualidade de Dino oferece ao disco o seu eixo como em “No Vento de Nós”, quando ele afirma: “Se o futuro é uma pergunta, eu respondo com o mar”, evocando a grande Kalunga, essa linha que une e separa o visível do invisível. E Amaro, com sua abordagem percussiva ao piano, costura essas margens com rigor e delicadeza.
Em “Seka”, o álbum encontra um dos seus momentos mais luminosos: um raro gesto de abundância em tempo de escassez, embalado pelo batuku, pulso ancestral nascido do corpo e da resistência das mulheres cabo-verdianas, generosa como a primeira água que cai após meses de seca na aridez do arquipélago da morabeza.
E na faixa “Amazônia” desenhada sobre aquela levada jazzy: A Tribe Called Quest, Karriem Riggins, Azymuth, em que o groove desliza macio, mas a mensagem corta fundo. Criolo aponta para a nossa indignação seletiva:
Os versos aproximam geografias — Amazonas, Califórnia, o planeta inteiro — lembrando que o colapso climático não reconhece fronteiras. Sem doutrinar, apenas iluminando o óbvio, cada canção nascida desse encontro faz o que a música afro-diaspórica sempre fez: desafia a ideia de “centro cultural”, desloca coordenadas e coloca em circulação mundos historicamente confinados. O disco não reivindica lugar — ele cria um.
Uma prova de que encontros imprevisíveis ainda podem alterar o curso das coisas. Um lembrete urgente de que a música continua sendo um dos lugares onde a esperança, essa palavra tão gasta, ainda pode soar verdadeira.
Vamos escutá-lo na ordem que nos é proposta, tendo em mente que a música negra não é um gênero; é uma conversa permanente sobre liberdade.





