Em um papo descontraído, repleto de memórias, revelações sobre a infância na fazenda, os bastidores da criação musical e os filmes biográficos, a lenda viva Paul McCartney e sua filha Stella compartilham histórias marcantes.
O mundo da música tem um nome definitivo: Paul McCartney. O eterno Beatle, integrante do Wings e presença constante na trilha sonora de gerações, participou de mais um episódio imperdível do programa Good Hang. Antes de receber o próprio Paul em estúdio, a atração conversou com sua filha, a renomada estilista Stella McCartney, que trouxe uma perspectiva única, bem-humorada e íntima sobre a dinâmica familiar e o peso de crescer sob os holofotes globais.
O prelúdio com Stella McCartney: Da fazenda escocesa à moda sustentável
O prelúdio com Stella McCartney: Da fazenda escocesa à moda sustentável
O programa começou com um papo leve com Stella McCartney, celebrada por seu trabalho pioneiro na moda sustentável e cruelty-free. Com um desfile em Paris agendado para poucos dias após a gravação, a estilista comentou com ironia sobre a rotina caótica pré-apresentação:
— Na verdade, estou usando algumas crianças para me ajudar a costurar umas coisas agora. Não são minhas próprias! — brincou Stella, esbanjando o clássico humor britânico.
Ao relembrar a infância na Escócia ao lado dos irmãos, Stella descreveu um cenário bucólico e curioso de desconexão com o glamour do pai famoso:
— Era basicamente autoentretenimento. Eu pegava pedras e batia em outras pedras. Não estou brincando: pedras contra pedras. E muito hipismo.
Quando questionada sobre os afazeres da fazenda, como pegar ovos direto do galinheiro, admitiu que fazia o tempo todo, embora achasse assustador. Ela ainda surpreendeu o público ao demonstrar uma habilidade inusitada: imitar galinhas e gatos com extrema precisão.
Refletindo sobre a experiência incomum de crescer compartilhando os pais com o público, Stella explicou a dualidade daquela rotina:
— É doido, irreal e surreal, mas foi a única realidade que conheci. Vivíamos de forma extrema em uma fazenda na Escócia, nós seis apertados em um único cômodo, mamãe cozinhando, papai tosquiando ovelhas e compondo músicas... E, de repente, estávamos em uma turnê mundial com 200 mil pessoas gritando para os seus pais.
Ela também destacou a amizade de longa data entre Paul e o criador do Saturday Night Live, Lorne Michaels — dupla que apelidou carinhosamente de "os garotos da ioga" (yoga boys), por manterem sempre uma "mente de iniciante" e aprenderem juntos há décadas.
Antes de se despedir, Stella deixou duas perguntas afiadas para o pai responder durante a entrevista:
"Você já fumou Monkberry Moon Delight [faixa do álbum Ram] e o que diabos aquelas letras significam?"
"Qual é a sua primeira memória, pai?"
"Você já fumou Monkberry Moon Delight [faixa do álbum Ram] e o que diabos aquelas letras significam?"
"Qual é a sua primeira memória, pai?"
Paul McCartney no estúdio: Altura, o tempo e a mentalidade dos 17 anos
Assim que assumiu os microfones do estúdio, Paul refletiu sobre o impacto de sua presença nas pessoas e a constante necessidade de deixá-las confortáveis: "As pessoas ficam meio nervosas perto de mim, então preciso descobrir como fazê-las se sentirem normais... Apenas seja normal."
Provocado sobre a ideia de parecer um "viajante do tempo", Paul confessou que sua percepção de idade não condiz com a realidade:
— Na minha cabeça, eu tenho 25 anos. Aí eu olho no espelho e digo: 'Não, você não tem, você é velho'.
Ele revelou que, durante os anos dourados dos Beatles, a banda utilizava uma métrica curiosa para tomar decisões criativas e de carreira:
— Sempre que tínhamos uma dúvida sobre uma música ou turnê, nos perguntávamos: 'O que o cara de 17 anos pensaria disso?'. Se aquele jovem de 17 anos não aprovasse, a gente não fazia. Conforme envelhecemos, tendemos a aceitar as coisas, mas ouvir aquele garoto era melhor porque ele era mais sensato e menos cético em relação ao mundo.
Sobre a separação dos Beatles (ocorrida quando ele tinha apenas 27 anos e após o lançamento de 13 álbuns em cerca de oito anos), Paul comentou que ninguém esperava que uma banda de rock durasse tanto tempo: "Cinco anos no topo era o limite. Mas, após cinco anos, pensamos: 'Oh, não, acabamos de fazer o Sgt. Pepper's, acho que podemos continuar.'
Para explicar sua ética de trabalho incansável, o músico cunhou um termo próprio:
As pessoas dizem que eu trabalho muito, mas eu respondo: 'Eu não trabalho com música, eu brinco com música' [play music, em inglês]. Sou um 'brincalhólatra' (playaholic), definitivamente viciado nisso.
Ele relembrou que seu primeiro emprego após a escola foi em uma fábrica, enrolando bobinas de cobre em armaduras de motores (coil winding) por um salário de £ 7,15 por semana. A carreira na fábrica acabou no dia em que John Lennon e George Harrison apareceram para chamá-lo para um show no The Cavern.
Paul também abordou as representações biográficas de sua vida no cinema. Ele expressou um incômodo bem-humorado com a diferença de altura em produções recentes, citando o filme Nowhere Boy (dirigido por Sam Taylor-Johnson), no qual o ator que interpretou John Lennon era consideravelmente mais alto e o derrubava no chão.
— Eu disse: 'Sam, isso não é verdade'. E ela respondeu: 'É um filme, não um documentário'. Eu não gostei da explicação! — brincou.
O assunto voltou à tona sobre o projeto liderado por Sam Mendes, onde Paul Mescal viverá o Beatle: — Eu mandei uma mensagem para o Sam dizendo: 'Paul é um pouco menor que o John, não cometa o mesmo erro'. Não dá para colocar saltos em pés descalços na faixa de Abbey Road!
A fraternidade dos Beatles e o processo criativo
O assunto voltou à tona sobre o projeto liderado por Sam Mendes, onde Paul Mescal viverá o Beatle: — Eu mandei uma mensagem para o Sam dizendo: 'Paul é um pouco menor que o John, não cometa o mesmo erro'. Não dá para colocar saltos em pés descalços na faixa de Abbey Road!
A fraternidade dos Beatles e o processo criativo
Mergulhando na dinâmica de amizade com John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, Paul reforçou que o sucesso do grupo veio do fato de terem crescido juntos desde a juventude, compartilhando agruras como as longas temporadas em pequenos clubes de Hamburgo:
— Nós crescemos juntos. Eu e George fomos para a mesma escola, John estudava na faculdade de arte ao lado. Quando você conhece alguém tão bem e por tanto tempo, vira uma família. Isso entra na sua escrita. Eu sabia o que ele estava pensando, podia dizer que não tinha gostado de uma linha ou ele podia me dizer que algo estava péssimo. Essa honestidade brutal é excelente para compor.
Sobre ensinar composição em sua antiga escola em Liverpool (o LIPA), Paul admitiu que não existe fórmula mágica:
— Eu sento individualmente com os alunos e digo: 'Não sei como fazer isso, não tenho ideia, porque a sua música vai ser diferente da minha'. Eu simplesmente sento ao piano ou com o violão, começo a tocar algo e, se soar bem, vou atrás.
Ele exemplificou o processo citando a faixa Days We Left Behind, de seu trabalho Boys of Dungeon Lane:
— Eu sabia que tinha algo bom quando pensei em olhar para fotografias do passado. Em vez de dizer 'olhando para fotos em preto e branco', mudei modestamente para 'olhando para branco e preto'. Essa pequena inversão trouxe o charme que eu procurava.
Bastidores de palco, lembranças de Linda e a Rainha Elizabeth II
Bastidores de palco, lembranças de Linda e a Rainha Elizabeth II
Questionado sobre sua rotina em dias de show, Paul revelou um ritual de café da manhã meditativo e inegociável:
— É um pouco de cereal e as superfrutas: berries! Têm que ser exatamente cinco framboesas, um punhado de blueberries e morangos fatiados. Nada de cafeína pela manhã, apenas água.
Ele brincou ao culpar amigos como Bruce Springsteen e Taylor Swift pela exigência atual de apresentações extenuantes: "Eu costumava fazer shows de uma hora. De repente o Bruce começou a fazer essas apresentações de três ou quatro horas e agora é isso que o público espera!"
Em um momento mais saudoso, Paul relembrou a convivência com sua falecida esposa, Linda McCartney, destacando sua coragem e a relação quase mágica com a natureza:
— Ela tinha uma visão meio Disney dos animais. Se encontrássemos um sapo no jardim, ela o pegava com um carinho que não machucava. Ela era uma mulher durona, mas de uma sensibilidade linda.
Ele também recordou o encontro marcante com a Rainha Elizabeth II, revelando que tinha 11 anos quando ela foi coroada com apenas 23: "Nós todos olhávamos e pensávamos: 'Nossa, que gata!'. Anos depois, tive a honra de receber o título de cavaleiro diretamente das mãos dela."
Respostas a Stella: O nascimento a forceps e o segredo de "Monkberry Moon Delight"
Respostas a Stella: O nascimento a forceps e o segredo de "Monkberry Moon Delight"
Atendendo aos questionamentos enviados por Stella, Paul respondeu primeiro sobre sua primeiríssima memória de vida, revelando uma lembrança impressionante — e compartilhada com a própria entrevistadora:
— Não sei se inventei isso, mas sinto que me lembro do meu nascimento. Nasci no Walton Hospital, em Liverpool, um prédio vitoriano antigo. Lembro de azulejos brancos higiênicos, do brilho dos instrumentos de cromo e do barulho metálico, porque foi um parto a forceps.
— Eu também fui um parto a forceps! Tive até marcas na cabeça — revelou a apresentadora.
— Eles tiveram que me puxar para fora, eu não queria sair! Estava bom demais lá dentro — brincou Paul.
Em seguida, Paul desmistificou a origem da psicodélica Monkberry Moon Delight, do álbum Ram:
— Eu provavelmente estava sob efeito de algo que fumei na época, mas a história é engraçada. Quando as crianças eram pequenas e não conseguiam pronunciar as palavras direito, a palavra para leite [milk] virou 'monk'. Elas pediam: 'Papai, me dá um pouco de monk?'. Eu associei isso a um milkshake fictício chamado Monkberry Moon Delight. A partir daí, viajei nas letras zombeteiras sobre pianos no nariz e sopas de purê. Olho para trás e penso que adoraria escrever coisas malucas assim hoje em dia.
O músico também compartilhou a história emocionante do nascimento de Stella, que enfrentou complicações de placenta prévia e precisou ir para a incubadora logo após a cesariana de emergência:
— Eu descia até o berçário para vê-la na incubadora e depois subia para contar à Linda. O mais incrível é que a Stella, ainda bebê, fazia um movimento com as mãos que era idêntico ao da mãe, sem nunca ter aprendido. Era algo puramente genético e natural.
Sobre músicas que gostaria de ter feito, letras banais e danças para TikTok
Sobre músicas que gostaria de ter feito, letras banais e danças para TikTok
Na entrevista, ele comentou que algumas músicas de sucesso são “muito banais”, destacando que, além de cantar frases como “eu quero o seu... eu quero isso”, os artistas também precisam acompanhar a música com os movimentos que viralizam no TikTok.
Sobre a geração atual, ele comentou que muitas composições atuais giram em torno de términos e corações partidos, algo que não é tão próximo de sua realidade, rindo enquanto falava: “E eu sou casado, né?”.
Quando questionado sobre músicas que gostaria de ter feito, ele fez questão de elogiar Billie Eilish, a quem considera “interessante” e “legal” e citou 'Just the Way You Are', clássico de 1977 de Billy Joel, como exemplo de melodia e sensibilidade que gostaria de ter criado.
A conexão histórica com o Saturday Night Live e reflexões finais
A entrevista também passou pela icônica relação de Paul com o Saturday Night Live. Ele relembrou o lendário episódio nos anos 70 em que Lorne Michaels foi à TV oferecer US$ 3.000 para que os Beatles se reunissem no programa.
— Eu estava no apartamento do John em Nova York assistindo ao programa ao vivo. Quando o Lorne fez a proposta, o John disse: 'Deveríamos pegar um táxi agora, ir até o estúdio e aparecer de surpresa!'. Por um segundo nós quase fomos, mas estava tão confortável no sofá que preferimos continuar assistindo.
Em uma rodada de perguntas rápidas para encerrar o encontro, Paul elegeu os anos 60 como a melhor década da música, escolheu o cavalo como seu animal ideal e apontou "Here, There and Everywhere" como a sua canção favorita entre todas as que compôs.
Concluindo a conversa com uma mensagem sobre afeto e legado, Paul reforçou sua visão de mundo:
— Eu me assumo como um romântico incorrigível. Não gosto de filmes de tiro e odeio zumbis. O amor é realmente a única coisa que importa; é tudo o que você precisa.
Entre lembranças de clássicos do cinema, conversas sobre o valor da amizade e até uma ligação surpresa ao vivo para a mãe da apresentadora — que comemorou efusivamente a entrevista com o Beatle —, o episódio selou uma celebração memorável da vida, da arte e do bom humor inabalável de Sir Paul McCartney.
Assista à entrevista completa abaixo:
Assista à entrevista completa abaixo:







