Tivemos a oportunidade de testar antecipadamente Ayasa: Shadows of Silence, o mais recente lançamento desenvolvido e publicado pela Aya Games. O estúdio independente, com sede em Los Angeles, se destaca por sua estrutura colaborativa global, reunindo talentosos artistas e desenvolvedores da Armênia e de diversos outros países para dar vida a projetos autorais marcantes.
A obra chegou para PlayStation 5 e Xbox Series X|S no último dia 26, estando disponível para PC (via Steam) desde Novembro do ano passado, propondo uma experiência narrativa profunda, poética e totalmente focada na atmosfera e no simbolismo visual.
SINOPSEComo um jogo de plataforma cinematográfica 2.5D, Ayasa: Shadows of Silence une uma atmosfera profunda e melancólica a elementos de mistério, terror psicológico e quebra-cabeças ambientais. Inspirado por clássicos modernos do gênero, como Limbo e Little Nightmares, o título constrói sua narrativa através de uma tensão constante entre o deslumbre e a vulnerabilidade.
Sua trama transporta o jogador para o Mundo Invertido, um plano surreal que se encontra em ruínas após o colapso do equilíbrio e as cicatrizes de uma guerra devastadora entre a luz e a escuridão. Nesse cenário de desolação e beleza decadente, o silêncio atua como o principal condutor da história, onde cada detalhe dos cenários e puzzles desvendados sugerem os vestígios de uma civilização esquecida, convidando o jogador a decifrar os segredos desse reino e o verdadeiro papel da protagonista em sua reconstrução.
MENU
Ao iniciar a jornada, o jogador é recebido por uma tela inicial intuitiva e funcional, que oferece os ajustes essenciais de experiência, como controle de brilho e gerenciamento independente de áudio para jogo, música e efeitos sonoros. O título destaca-se de imediato pelo seu amplo suporte de acessibilidade linguística: por padrão, o jogo reconhece e define o idioma do console, mas permite alternar manualmente entre uma vasta lista de opções, que inclui romeno, russo, sueco, ucraniano, polonês, norueguês, húngaro, finlandês, neerlandês, tcheco, grego, dinamarquês, chinês, japonês, coreano, búlgaro, espanhol, alemão, italiano, francês, armênio e inglês.
A simplicidade da proposta também pode ser notada na interface dos comandos. Com esquemas diretos e sem poluição visual, as ações no controle limitam-se ao essencial para a navegação e a resolução de desafios: correr, pular, agachar, acionar a luz, interagir, manipular o tempo e acessar o menu de pause. Essa estrutura garante que a atenção do jogador permaneça totalmente voltada para a imersão nos cenários e nas mecânicas de gameplay.
Ao iniciar a jogatina, somos apresentados a um vídeo introdutório, antes de assumirmos o controle da jovem sobrevivente em sua jornada física e espiritual. A experiência se traduz em mecânicas intuitivas de exploração, sobrevivência e resolução de problemas ao longo de seis reinos surreais, com cada um simbolizado por forças morais marcantes como Fé, Esperança, Amor, Ganância, Indiferença e Traição.
Nos primeiros minutos, contudo, a jogabilidade apresenta uma curva de aprendizado exigente. Por ser um título 2.5D que permite movimentação livre em profundidade tridimensional, mas sem o controle direto da câmera, a adaptação aos comandos exige precisão. A movimentação atrelada exclusivamente ao analógico pode causar deslizes incômodos em superfícies estreitas (como tábuas e passarelas), onde qualquer desvio mínimo em relação à linha reta resulta em quedas letais. Embora essa rigidez pareça uma escolha intencional de level design para reforçar o perigo dos cenários, a possibilidade de utilizar o D-pad para ajustes mais finos traria um conforto bem-vindo em momentos específicos.
Ainda na primeira parte do jogo, outro trecho que exige extrema precisão ocorre na travessia de uma em que é necessário pular de plataforma em plataforma. O trecho destaca um nível alto de exigência na física dos saltos, já que um toque ligeiramente mais firme no botão de pular pode fazer a personagem passar do ponto e cair na água.
Somado a isso, há momentos em que a resposta do comando de pulo parece falhar sutilmente, resultando em quedas inevitáveis de qualquer forma. Essa sensibilidade apurada nos controles acentua o tom punitivo da exploração, exigindo paciência dobrada do jogador para dominar o tempo correto e o ritmo de cada movimento.
Ao longo da gameplay, a curva de dificuldade do jogo vai sendo ampliada, com a navegação deixando de focar apenas no ritmo dos saltos do primeiro capítulo para exigir uma postura muito mais estratégica e cautelosa por parte do jogador durante o segundo capítulo, enfrentando novos obstáculos e ameaças.
Com a mecânica de furtividade (stealth) e o uso constante sendo essenciais para a sobrevivência, é necessário observar padrões de patrulha dos monstros e aproveitar de maneira inteligente das coberturas fornecidas pelo cenário (como mesas, caixas e outras estruturas ou sombras), obrigando o jogador a se mover exclusivamente quando as criaturas estão de costas ou olhando para a direção oposta. Além disso, é preciso interagir com o cenário em diversos momentos para irmos avançando, algo que também ocorre ao acionar, por exemplo, o mecanismo de manipulação temporal para recriar elementos do cenário que nos permitem dar sequência.
Na terceira parte da jornada, os desafios ganham ainda mais complexidade, com seus puzzles indo desde o alinhamento de caixas rúnicas aos seus encaixes no solo até o ajuste de ponteiros de relógios convertidos em plataformas improvisadas para saltos verticais. Nesse momento, a habilidade de reconstrução volta a desempenhar um papel importante, refazendo estruturas de pedra e pontes colapsadas para desvendar passagens antes inacessíveis.
Com intensas sequências de fuga e perseguições verticais que testam a precisão dos saltos sob extrema pressão, com o ambiente reagindo de forma dinâmica por conta de pilares que desabam em tempo real, rios agitados exigem travessias precisas sobre tábuas flutuantes, entre outros desafios que exigem adaptação constante do jogador.
Na quarta etapa da jornada, o level design eleva o suspense visual e foca nas mecânicas ambientais de precisão industrial, com o terror psicológico se intensificando, enquanto a progressão passa a exigir o gerenciamento de elementos do cenário e resolução de puzzles em etapas.
Com o progresso dependendo da interação contínua com encanamentos e sistemas mecânicos, precisamos desligar registros e válvulas na ordem correta para interromper gases venosos que bloqueiam o caminho.
Nesse momento, é apresentado um tipo de inimigo imune às habilidades de ocultação de Ayasa, com a única alternativa sendo correr por salas de experimentos e trilhos de trem que conduzem à fábrica de monstros.
Na reta final da jornada, o jogo atinge seu clímax ao entrelaçar perigos ambientais letais, sequências de alta tensão e reviravoltas narrativas imprevisíveis. A exploração passa a exigir um rigoroso controle de ritmo e timing: o jogador precisa calcular cada movimento para atravessar jatos de fogo intermitentes, desviar de engrenagens em rotação contínua e acionar sequências de válvulas e botões para destravar portões e elevadores sob extrema pressão. Essa escalada de desafios conduz a protagonista por passagens cada vez mais claustrofóbicas até o confronto com o desfecho surpreendente do enredo.
No geral, Ayasa: Shadows of Silence não contém uma única palavra falada ou escrita ao longo da história, a narrativa se constrói estritamente por meio de tudo o que vemos na tela e da forma como interagimos com os cenários e fugimos dos inimigos.
Colocando a consciência do jogador no centro da experiência, cada escolha, ato de compaixão ou omissão ao longo dos desafios determina o destino da jornada, com momentos críticos definindo se a protagonista Ayasa conseguirá restaurar a luz e o equilíbrio perdido ou se sucumbirá à própria corrupção que tenta combater, culminando em diferentes finais que refletem diretamente suas decisões.
Essas decisões colocam o jogador diante de uma bifurcação narrativa crucial, oferecendo duas conclusões distintas: The Truth Remembered (A Verdade Lembrada) e The Truth Forgotten (A Verdade Esquecida). Esses desfechos não apenas alteram o encerramento da história de Ayasa, mas funcionam também como uma profunda reflexão sobre trauma, memória e aceitação.
DIREÇÃO DE ARTE
Tendo uma ambientação visual que remete a Tim Burton e Hayao Miyazaki, acompanhada pela trilha sonora composta por Komitas, o jogo entrega quadros que funcionam como telas pintadas à mão, ricas em simbolismo, surrealismo e uma melancólica atmosfera noir.
A beleza desse universo está presente em sua paleta de cores minimalista, que transita com maestria entre o deslumbre e o horror subjetivo. Os ambientes contam suas próprias histórias por meio da arquitetura, onde o jogo de luzes e sombras converte cada trecho do jogo num relato visual sobre perda, ruína e esperança, enquanto escancara em cada detalhe as cicatrizes e a beleza decadente do Mundo Invertido.
TROFÉUS
Para os caçadores de platinas, o jogo conta com 17 conquistas e troféus espalhados pela progressão da história, desbloqueio de poderes especiais e múltiplos finais, funcionando como um verdadeiro mapa da evolução psicológica da protagonista. No geral, é exigido que o jogador explore todas as habilidades, supere os reinos conceituais e presencie os dois caminhos narrativos no clímax da jornada.
A maior parte das conquistas está atrelada à conclusão dos mundos que representam os sentimentos e provações de Ayasa, mas também troféus concedidos ao desbloquear as três habilidades fundamentais para a resolução de quebra-cabeças e navegação:
- Time Power: Recompensa a manipulação temporal de plataformas e obstáculos no cenário.
- Invisibility Power: Liberado ao obter a capacidade de transitar por áreas perigosas sem ser detectado.
- Light Power: Desbloqueado ao dominar a habilidade de dissipar a escuridão e revelar caminhos ocultos.
Já a conquista dos 100% exige tomadas de decisão distintas no Mundo da Traição:
- The Truth Remembered (A Verdade Lembrada): Conquistado ao escolher o caminho da aceitação do trauma, levando ao desfecho real.- The Truth Forgotten (A Verdade Esquecida): Obtido ao optar pela negação, resultando no final alternativo.
- Two Endings: O troféu definitivo que valida a experiência completa do jogador após presenciar ambas as realidades.
CONCLUSÃO
Ayasa: Shadows of Silence se firma como uma obra autoral marcante e poeticamente ambiciosa dentro do gênero de plataforma cinematográfica 2.5D. Ao abrir mão inteiramente do uso de palavras, a Aya Games confia na força do seu design visual, na carga simbólica do Mundo Invertido e na expressiva trilha sonora de Komitas para conduzir o jogador por uma jornada de reflexão profunda sobre trauma, moralidade e aceitação.
Apesar de ter alguns problemas na precisão da movimentação e apresente uma física de saltos por vezes punitiva, o título compensa com uma evolução constante de dinâmicas. O ecossistema de gameplay mantém a tensão e o interesse do início ao fim. Além disso, a a dualidade de desfechos ancorados na consciência do jogador eleva a relevância das escolhas ao longo dos seis reinos morais, concedendo peso emocional real à nossa jornada.
Para os entusiastas de experiências atmosféricas na linhagem de Limbo e Little Nightmares, o jogo entrega um quadro surrealista vivo e provocativo, não desafiando somente a habilidade motora do jogador frente a cenários claustrofóbicos e ameaças colossais, mas também nos convidando a habitar o silêncio e a decifrar a luz que reside nas sombras.
















