Novo capítulo da franquia promete combinar a liberdade e o caos tradicionais de Grand Theft Auto com sistemas mais profundos de interação, personagens mais complexos e uma representação detalhada da Flórida.
Treze anos depois do lançamento de Grand Theft Auto V, a Rockstar Games se prepara para colocar os jogadores novamente em um dos universos mais populares dos videogames. Com lançamento previsto para 19 de novembro de 2026, Grand Theft Auto VI levará a série de volta a Vice City e ao estado fictício de Leonida, inspirado na Flórida, apostando em um mundo mais detalhado, reativo e próximo da realidade.
Em entrevista à Dazed (leia matéria completa aqui), integrantes da Rockstar falaram sobre o desenvolvimento do jogo, a pressão para suceder um dos maiores fenômenos da indústria e as mudanças implementadas no novo capítulo. A reportagem integra a edição de outono de 2026 da revista, que chega às bancas internacionalmente em 10 de setembro.
Desde o lançamento de GTA V, em 2013, a expectativa em torno de uma continuação cresceu de maneira excepcional. O título se tornou um dos maiores sucessos comerciais da história do entretenimento, enquanto Red Dead Redemption 2, lançado cinco anos depois, mostrou outra faceta da Rockstar ao apostar em uma experiência mais lenta, realista e emocional.
Segundo Rob Nelson, chefe de desenvolvimento e co-chefe de estúdio da Rockstar North, a equipe utiliza os trabalhos anteriores como referência para identificar aquilo que pode ser aprimorado.
“Analisamos nossos jogos anteriores com um olhar crítico e vemos onde queremos evoluir”, explicou Nelson.
Essa filosofia aparece diretamente em GTA VI. O novo jogo pretende encontrar um equilíbrio entre o caos característico da franquia e o nível de imersão apresentado em Red Dead Redemption 2.
Um mundo que reage às ações do jogador
A principal mudança está na maneira como Leonida responde às ações dos jogadores. Embora armas, carros esportivos, perseguições e atividades criminosas continuem fazendo parte da experiência, o mundo promete ser menos permissivo.
Andar pelas ruas carregando um rifle, por exemplo, poderá provocar reações dos personagens e do ambiente. Os NPCs foram desenvolvidos para se comportarem de maneira mais natural, reduzindo a sensação de que são apenas figuras estáticas criadas para preencher o cenário.
A Rockstar pretende que o jogador sinta que está inserido em um ambiente vivo, no qual suas escolhas produzem consequências.
Essa abordagem também se estende aos protagonistas. Pela primeira vez em um jogo principal da franquia, a história será protagonizada por um casal: Jason Duval e Lucia Caminos.
Jason é apresentado como um ex-militar envolvido com o tráfico de drogas, enquanto Lucia acaba de sair da prisão. Os dois formam uma dupla inspirada na dinâmica clássica de histórias de criminosos em fuga, com a Rockstar descrevendo a narrativa como uma espécie de história à la Bonnie and Clyde.
Os jogadores poderão alternar entre Jason e Lucia durante determinadas situações. Em uma viagem de carro, por exemplo, será possível assumir o controle de Jason enquanto dirige ou trocar para Lucia e utilizar o celular dentro do veículo.
O sistema ganha ainda mais importância durante as missões. Uma perseguição pode começar com Jason ao volante e, segundos depois, colocar o jogador no controle de Lucia para disparar contra os perseguidores pela janela do passageiro.
Depois da ação, a experiência pode voltar a momentos mais tranquilos, como atravessar o litoral de Leonida em uma moto aquática.
Lucia representa uma nova fase para a franquia
Lucia também ocupa um lugar histórico dentro da série. Ela é a primeira protagonista feminina totalmente desenvolvida de um jogo principal de Grand Theft Auto.
Desde 1999, os protagonistas dos capítulos principais da franquia haviam sido predominantemente homens. A exceção ocorreu no primeiro Grand Theft Auto, de 1997, que apresentava uma divisão entre personagens masculinos e femininos.
A representação feminina se tornou uma questão particularmente importante para a Rockstar após críticas direcionadas ao tratamento das mulheres em episódios anteriores, incluindo GTA V. Com Lucia, a companhia pretende apresentar uma personagem com identidade, personalidade e trajetória próprias.
Para Nelson, a intenção não é transformar os protagonistas em simples avatares que o jogador pode manipular livremente.
“A história deles se torna uma jornada que você compartilha com eles”, afirmou.
O jogador continua tendo liberdade
Apesar da maior preocupação com narrativa e realismo, a Rockstar não pretende abandonar uma das principais características da franquia: a liberdade para fazer praticamente qualquer coisa entre uma missão e outra.
GTA V permitia aos jogadores alternar entre perseguições, tiroteios, corridas, passeios de carro, partidas de golfe e inúmeras outras atividades. Red Dead Redemption 2 levou esse conceito ainda mais longe, permitindo que Arthur Morgan pescasse, caçasse, acampasse, bebesse e explorasse o ambiente durante longos períodos.
GTA VI amplia novamente esses sistemas.
A alimentação poderá afetar o peso de Jason e Lucia, enquanto atividades físicas terão impacto visível em seus corpos. Os personagens também poderão apresentar mudanças decorrentes de seus hábitos e do tempo que passam longe de casa.
A ideia é fazer com que as ações do jogador tenham consequências não apenas na história, mas também na aparência e na rotina dos protagonistas.
Vice City será construída a partir da Flórida real
Um dos maiores desafios da Rockstar foi recriar a cultura da Flórida sem simplesmente transformar seus estereótipos em piadas.
Vice City, inspirada em Miami, terá desde áreas urbanas e praias até regiões selvagens. A equipe passou anos pesquisando a região, com funcionários viajando para Miami e arredores e uma equipe dedicada de pesquisa trabalhando diretamente na cidade.
Segundo Jamie-Lee Lloyd, diretora artística sênior de personagens, a Rockstar conversou com diferentes grupos para compreender melhor a população local.
Ex-criminosos, policiais, promotores de clubes, vendedores de armas e outras figuras ligadas à vida da região foram entrevistados durante o processo.
A intenção foi entender as histórias e características dessas pessoas para, posteriormente, transformá-las em personagens que façam sentido dentro do universo de GTA.
O escritor Michael Wiafe explica que a equipe evitou simplesmente reproduzir os clichês associados à Flórida.
A ideia é permitir que o jogador descubra a cultura de Leonida em vez de apenas receber uma coleção de estereótipos.
Música e cultura também terão papel importante
A representação de Miami se estende à música. A Rockstar afirma ter estudado especialmente a cena do Miami bass e artistas contemporâneos da região.
O universo musical do jogo também será explorado por personagens como Dre'Quan Priest, responsável por um estúdio musical, e pelo veterano empresário Boobie Ike, que administra um império envolvendo o clube Jack of Hearts e outras atividades.
A história também acompanha as Real Dimez, estrelas em ascensão cuja trajetória poderá ser acompanhada por meio das redes sociais presentes no jogo.
Sim, GTA VI terá feeds de redes sociais funcionais dentro do universo virtual — outro elemento utilizado pela Rockstar para satirizar a cultura da década de 2020.
Um mundo com mais diversidade
Outro ponto destacado pela equipe é a variedade da população de Vice City.
Os NPCs terão diferentes corpos, idades, estilos de roupa, tatuagens, piercings e modificações corporais. A aparência também deverá refletir a região onde cada personagem vive.
A Rockstar criou novas ferramentas e sistemas para produzir a população mais detalhada e diversificada já desenvolvida para um de seus jogos.
Mais do que aparência, entretanto, a equipe pretende diferenciar os personagens pela maneira como se movimentam, interagem e se expressam.
A estilista Jillian Carr, que trabalha com a Rockstar desde 2023, participou da criação de um verdadeiro “ecossistema de moda” para o jogo.
Segundo Carr, Vice City é uma cidade marcada pela vaidade, pela cultura das celebridades, pelas redes sociais e pelo fluxo constante de turistas. Por isso, tendências e aparência terão um peso importante na identidade visual do local.
As roupas também poderão funcionar como uma extensão da personalidade dos protagonistas, adicionando outra camada de personalização à experiência.
Uma produção gigantesca
Para construir esse mundo, a Rockstar ampliou significativamente sua estrutura desde Red Dead Redemption 2.
A equipe mais que dobrou de tamanho, possui escritórios em diferentes partes do mundo e conta até com uma unidade em Los Angeles dedicada principalmente ao desenvolvimento dos pedestres.
Mais de 50 artistas de rua reais participaram da criação de murais presentes em áreas de Vice City, enquanto a equipe responsável pelo comportamento dos veículos inclui pilotos profissionais.
Toda essa estrutura reflete a dimensão do projeto — e também a pressão sobre a Rockstar.
A expectativa em torno de GTA VI é gigantesca, especialmente depois de mais de uma década de espera. Além disso, o jogo deverá permanecer relevante durante muitos anos após seu lançamento.
Para Nelson, porém, essa pressão também representa um privilégio.
“É muita pressão interna e externa, mas essa pressão é, em última análise, um privilégio que sabemos ter a sorte de possuir”, afirmou.
A Rockstar, portanto, parece estar apostando em uma evolução cuidadosa da fórmula que tornou Grand Theft Auto um fenômeno mundial. GTA VI não pretende abandonar o caos, a sátira e a liberdade que definiram a série, mas incorporá-los a um mundo mais complexo, no qual personagens, ambientes e até os corpos dos protagonistas respondem às escolhas do jogador.
Assista ao Extended Look abaixo:
Grand Theft Auto VI chega em 19 de novembro de 2026 para PlayStation 5 e Xbox Series X/S.
Esta matéria foi baseada na reportagem publicada pela Dazed na edição de outono de 2026, que estará disponível internacionalmente a partir de 10 de setembro.





