O impacto de Extreme, Lynyrd Skynyrd e Guns N' Roses sobre diferentes gerações em uma só noite

Texto: Lênin Zanovelli 
Fotos: Ricardo Matsukawa (Mercury Concerts) e Guns N' Roses 

Convidados pelo Allianz Parque, pudemos conferir o palco de um verdadeiro encontro de gerações no último sábado, dia 4 de abril. Com um lineup de peso, o Monsters of Rock entregou uma montanha russa de emoções que transitou entre o virtuosismo técnico, a nostalgia e o hard rock em questão de horas. Chegamos a tempo de acompanhar as apresentações de Extreme, Lynyrd Skynyrd e Guns N' Roses na mesma noite, testemunhando a força de bandas que, cada uma à sua maneira e com propostas sonoras totalmente distintas, moldaram a história da música e continuam provando porque são gigantes intocáveis. 


Extreme
O Extreme desembarcou no Allianz Parque com a missão de provar que a sua escalação para o Monsters of Rock 2026 não era por acaso. E eles não apenas provaram, como entregaram uma performance digna da grandiosidade histórica do festival.

O único grande lamento da noite, infelizmente, foi o tempo de palco reduzido. Uma banda com a empolgação e a fome de jogo que eles demonstraram merecia um setlist bem mais extenso, o que acabou deixando de fora pérolas fundamentais e muito aguardadas, como "Rest in Peace".

Mesmo com o relógio correndo contra, o show não perdeu fôlego. Pelo contrário: foi pautado pela intensidade e por uma aposta certeira no peso, englobando faixas ferozes dos trabalhos mais recentes do álbum Six, como "Rise", "#Rebel" e "Thicker Than Blood". A sintonia e a entrega ao vivo foram daquelas que inspiram a todos os presentes.

À frente da formação atual, composta por Gary Cherone (vocal principal), Nuno Bettencourt (guitarra, violão e vocais de apoio), Pat Badger (baixo e vocais de apoio) e Kevin Figueiredo (bateria e percussão), o grupo mostrou uma química sólida e afiada.

O vocalista Gary Cherone foi um espetáculo à parte. No auge de seus 64 anos, o frontman esbanjava uma jovialidade contagiante, movimentando-se pelo palco sem parar um segundo. Parecia que a ioga ou as aulas de karatê estavam em dia, já que ele distribuía saltos altíssimos e chutes no ar que fariam inveja a muita gente jovem. Mas, no quesito mais importante, Cherone mostrou que a voz continua impecável.

Na outra ponta do palco, Nuno Bettencourt fez o que faz de melhor: deu uma aula magnética de virtuosismo. Para os fãs mais fervorosos, a genialidade de Nuno não é novidade, mas quem não conhecia a fundo a banda ou suas origens certamente ficou de boca aberta. Com um talento esplêndido que destrói tanto na guitarra quanto no violão, ele deixou claríssimo o motivo de ter sido eleito um dos 250 maiores guitarristas de todos os tempos pela revista Rolling Stone.

Um dos momentos mais saborosos do show foi a sua interação direta com o público. Falando fluentemente em seu português nativo de Portugal, Nuno gerou um burburinho divertido na plateia, com muitos desavisados se perguntando perplexos como ele sabia falar tão bem, claramente desconhecendo que o músico nasceu em Portugal.

O ápice emocional, no entanto, veio com "More Than Words". Sendo uma das baladas mais icônicas da história da música mundial, a canção transformou o estádio inteiro em um coral. Era possível ver pessoas se emocionando, casais se abraçando e um clima de amor tomando conta do ar enquanto cada garganta ali cantava os refrões.

No fim das contas, foi um show pesado e muito bem executado. O Extreme subiu ao palco paulistano e provou, sem abrir margem para dúvidas, que é e sempre será um verdadeiro Monstro do Rock.


Setlist

It (’s a Monster)
Decadence Dance
#Rebel
Play With Me
Am I Ever Gonna Change
Thicker Than Blood
Hole Hearted
Midnight Express
More Than Words
Get the Funk Out
Rise

Lynyrd Skynyrd
Quando o Lynyrd Skynyrd assumiu o palco do Allianz Parque, uma energia sensivelmente diferente tomou conta do Monsters of Rock. Sendo, sem dúvidas, a atração com a sonoridade menos "pesada" de um lineup focado em guitarras estridentes e ritmos frenéticos, os gigantes do southern rock causaram um choque de realidade de certa maneira encantador.

Para muitos que não conheciam a fundo o trabalho do grupo, a apresentação foi uma grata e imensa surpresa. A atmosfera mudou completamente: o clima caótico deu lugar a uma reverência quase teatral. Boa parte do público assistiu ao espetáculo estática, parecendo que estavam sentados ou apenas hipnotizada pela musicalidade impecável, reagindo com mais fervor apenas quando o carismático vocalista Johnny Van Zant exigia a interação da plateia.

À frente da formação atual, composta por Johnny Van Zant nos vocais, Rickey Medlocke, Mark Matejka e Damon Johnson nas guitarras e vocais, Robbie Harrington no baixo, Michael Cartellone na bateria, Peter Keys no piano e na gaita, além das backing vocals de Carol Chase e Stacy Michelle, a banda mostrou toda a força de um legado que atravessa gerações.

O que se viu foi um show focado em celebrar um legado imortal e homenagear aqueles que construíram a lenda da banda. O setlist entregou exatamente o que a alma pedia, e o ápice emocional e de coro coletivo, como não poderia deixar de ser, ficou por conta da trinca de ouro: "Simple Man", "Sweet Home Alabama" e "Free Bird".

O espetáculo, no entanto, guardava momentos de arrancar lágrimas muito antes do encerramento. Um dos pontos mais belos, tocantes e até inesperados da noite ocorreu durante a melancólica "Tuesday’s Gone". Enquanto a banda tocava, os telões exibiam imagens do lendário guitarrista Gary Rossington, que nos deixou em 2023. A emoção foi palpável e dominou o estádio. As câmeras de transmissão fizeram questão de capturar e exibir diversas pessoas chorando na plateia, criando uma conexão de luto e amor absurda entre o palco e os fãs.

O grande carro-chefe, como manda a tradição, foi guardado para o final. "Free Bird" não foi apenas o encerramento de um show, mas um verdadeiro culto. A icônica introdução suave foi cantada em uníssono por todo o Allianz, preparando o terreno para o histórico solo final, que fez o público enlouquecer. Para tornar tudo ainda mais grandioso, a performance contou com um dueto virtual de arrepiar: Johnny Van Zant dividiu os vocais com o seu falecido irmão e lendário frontman original, Ronnie Van Zant, que os acompanhava através de projeções no telão. Aproveitando o tom de consagração à vida, a faixa serviu como um imenso memorial em vídeo para todos os integrantes que já partiram, deixando um gosto nostálgico e muito especial no ar.

Setlist

Workin’ for MCA
What’s Your Name
That Smell
I Need You
Gimme Back My Bullets
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Still Unbroken
The Needle and the Spoon
Tuesday’s Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me The Breeze
Red White & Blue (Love It Or Leave) — trecho
Sweet Home Alabama
Free Bird

Guns N' Roses
Faz apenas alguns meses desde a última passagem do Guns N' Roses pelo Brasil, mas a julgar pela euforia ensurdecedora que tomou conta do Allianz Parque no último sábado, a sensação era de que a banda estava pisando em solo brasileiro pela primeira vez. Esse é o verdadeiro atestado do tamanho e do impacto cultural do grupo.

O Monsters of Rock atrai historicamente um público bastante heterogêneo, mesclando a velha guarda com a nova geração. E, mesmo dividindo o lineup com bandas mais recentes, o Guns foi, sem sombra de dúvidas, o gigante veterano que mais capturou a devoção dos jovens, provando que a força de seus hinos atravessa o tempo e emociona todas as idades.

Formada por Axl Rose nos vocais principais e piano, Slash na guitarra solo, Duff McKagan no baixo e vocais de apoio, Dizzy Reed nos teclados, piano, percussão e vocais de apoio, Richard Fortus na guitarra rítmica e vocais de apoio, e Isaac Carpenter na bateria, a  energia que a banda irradia do palco é absoluta e contagia até o mais cético dos presentes. É inegável que o tempo cobra seu preço e o desgaste vocal existe, mas Axl compensa qualquer limitação com uma entrega visceral. Ele corre, domina o palco e hipnotiza o estádio, deixando claro o motivo de ser considerado um dos maiores e mais icônicos frontmen de todos os tempos, se não o maior.

Mas a verdadeira mágica acontece quando Axl e Slash dividem os holofotes. A cumplicidade e a interação entre o vocalista e o guitarrista da cartola fluíram com tamanha naturalidade que parecia que as décadas de atrito, processos e afastamento simplesmente nunca existiram. Ver os dois juntos no palco, em plena sintonia, é presenciar um dos maiores espetáculos que o rock and roll já produziu na face da Terra.

E para coroar a noite, a banda trouxe um repertório com alterações significativas em relação ao show que fizeram em São Paulo em 2025. A montagem do setlist mostrou um Guns N' Roses disposto a sacudir as próprias estruturas. Eles deixaram de fora grandes baladas como "Don't Cry" e cortaram singles recentes como "Hard Skool", "The General" e "Absurd".

Essa limpeza no repertório abriu espaço para um hard rock mais sujo e direto, além de abrir as portas do cofre para algumas surpresas históricas. O grande choque da noite foi, sem dúvidas, a execução de "Bad Apples", faixa do Use Your Illusion I que não dava as caras em um show da banda há mais de 30 anos. Além disso, trouxeram "Dead Horse", "Nothin'", "Atlas" e "Bad Obsession", renovando a experiência até para o fã que não perde uma única turnê.

No fim, o Guns N' Roses entregou exatamente o que se espera de uma atração principal de um festival com esse calibre: um show gigante e que vai ficar martelando na cabeça de quem esteve lá por muito tempo.




Setlist

Welcome to the Jungle
Slither [Velvet Revolver]
It’s So Easy
Live and Let Die [Wings]
Mr. Brownstone
Bad Obsession
Rocket Queen
Perhaps
Dead Horse
Double Talkin’ Jive
Nothin’
You Could Be Mine
Civil War
Junior’s Eyes [Black Sabbath]
Knockin’ on Heaven’s Door [Bob Dylan]
New Rose [The Damned] [Duff canta]
Atlas
Solo de Slash
Sweet Child o’ Mine
Estranged
Bad Apples
November Rain
Nightrain
Paradise City


No fim das contas, o Monsters of Rock foi mais do que um festival, foi uma celebração viva da longevidade e da capacidade de reinvenção do rock.

Em uma única noite, Extreme, Lynyrd Skynyrd e Guns N' Roses mostraram que não existe uma única forma de permanecer relevante: seja pela técnica impecável, pela força do legado ou pela conexão com o público.

Cada apresentação carregou sua própria identidade, mas todas convergiram em um mesmo ponto: a prova de que o rock continua atravessando gerações e se renovando no olhar de novos fãs sem perder sua essência.

Entre momentos de euforia, contemplação e emoção genuína, o festival reafirmou algo que o tempo insiste em confirmar: essas bandas não apenas fizeram história, elas continuam sendo parte ativa dela.

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