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    Coringa. Um drama sólido visceralmente poético

                                                             Dir: Todd Phillips

    Se tem algo deixa qualquer cinéfilo aflito, são os filmes de origem. Basta alguns tropeços para que torne o filme um desastre de crítica e consequentemente, de bilheteria. Venom e Han Solo estão aí para provar isso. E então Hollywood resolver fazer um filme de origem do Coringa. O icônico vilão de Batman, que até hoje ocupa o mesmo patamar de Darth Vader em termos de antagonistas famosos e queridos pelos fãs. E o grande desafio para quem aceitasse o papel: passar pelo Coringa de Jack Nicholson e ser tão grandioso quanto o de Heath Ledger.

    Todd Phillips é dono de um currículo de respeito. Da trilogia de Se Beber Não Case ao recente e aclamado Nasce Uma Estrela, em Coringa ele deixa claro o quanto sabe o que está fazendo. Para começar, vemos Joaquim Phoenix na provavelmente melhor atuação de sua carreira que tem dado o que falar. Phoenix carrega o longa todo de 2 horas nas costas e não parece nem estar suando para fazer isso, e o faz com  tal habilidade que só os grandes veteranos de seu porte são capazes de entregar. Ele é Arthur Fleck, um pobre rapaz que cuida da sua mãe e ganha uns poucos bocados fazendo bicos como palhaço em qualquer lugar que lhe for oferecido. Com um roteiro impecável sem a menor pressa de contar sua história, vemos Arthur se afogar na maldade da sociedade que o cerca na cidade de Gothan. Tudo isso de um jeito que chega até a lembrar O Iluminado, de Kubrick.

    No caso de Coringa, o longa entrega tudo de bom que tem a oferecer de uma forma que Venom nem sonharia. Com a belíssima ajuda de uma direção de arte digna de Oscar, as paletas de cores, fotografia e trilha intensificam tudo, nos imergindo na loucura de Phoenix. Este entregando um novo e maravilhoso Coringa para a cultura pop. É possível ver traços em sua performance que muito lembram Heath Ledger, mas num tom de tributo e não de muleta. Phoenix já mereceria um Oscar sem dúvidas. A icônica risada do vilão criada pelo ator é indiscutivelmente macabra e incomoda os ouvidos. Prova irrefutável de um trabalho e preparação sem igual, de um ator do nível de Phoenix.

    Algo que tem causado polêmicas nas estreias e entrevistas é o tema da violência. Sim. O longa não economiza sangue e as cenas de agressão deixariam até Quentin Tarantino horrorizado. A polêmica ainda é alimentada pela forma como Phillips trata seu coringa. Arthur é um ser humano, frágil, vulnerável e fraco. E Phillips desconstrói todo o conceito de vilão e herói e mesmo o anti herói. E faz isso com uma história sólida, original, hipnótica e divertida. Coringa é brutal, visceral, dramático, mas também é poético, belo, engraçado, envolvente.  É até compreensível a divisão de opiniões a respeito do filme que carrega um humor negro, ácido e muito sarcasmo, mas a verdade é que Coringa é um filme único.

    Phillips ainda nos faz questionar o que é de fato engraçado ou não, o que é certo e errado, entre outros levantamentos reflexivos. Ou seja, o próprio longa carrega em sua narrativa a dualidade do ser humano tornando tudo dois lados da mesma moeda. O filme grita isso de todas as formas possíveis, de enquadramentos à cores fazendo do conflito de Arthur, o do espectador.

    Chega a ser quase irrelevante que Coringa seja um personagem dos quadrinhos. Isso porque em tempos de filmes épicos demais, este se assume claramente como drama e não tem medo de ser tão bizarro e sombrio quanto seu protagonista. E nisso reside também a genialidade de Todd Phillips, a de nos mergulhar profunda e dolorosamente na história do imbatível palhaço do crime. Não espere grandes cenas de ação com lutas ou explosões. O buraco é muito mais em baixo. E qualquer informação a mais, seria estragar a experiência intensa de Coringa.

    Se antes o Coringa já tinha seu lugar ao sol na cultura pop, agora ele tem um trono. Se o longa for bem nas próximas premiações então, será um daqueles que em pouco tempo se tornará um clássico aclamado e cultuado. Daqueles que as pessoas irão falar daqui há dez ou vinte anos, fazendo assim jus à fama do vilão mais cool de todos os tempos.