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Em meio à um espetáculo audiovisual épico e nostálgico, Roger Waters também cria polêmica durante show em São Paulo



Em sua quarta passagem pelo Brasil, Roger Waters abriu sua turnê US+THEM em São Paulo no estádio do Allianz. O show é um típico espetáculo do co-fundador do Pink Floyd e tem tudo e muito mais do que você espera. Luzes e lazers? Sim, mas em mais quantidades e potência. Som quadrifônico? Claro, mas com caixas e caixas de amplificadores até a última cadeira das arquibancadas mais distante. Telão? Óbvio, um de quase mil metros quadrados com as imagens que ambientam ainda mais o clima do show. Um imenso upgrade tecnológico nas turnês do músico que é conhecido também, justamente, pela sua megalomania e de ser a grande mente criativa do Pink Floyd. Com 75 anos, Waters dá seu recado e nunca deixa de surpreender seus fãs.

O show abre com Dark Side of the Moon, disco de 1973 e um dos mais vendidos da história. Speak to Me, Breath, e Time nos preparam para tudo o que ainda está por vir. Vemos o que seria possivelmente uma reprodução mais fiel de um show do grupo em 2018. Os músicos Jonathan Wilson e David Kilminster dividem as guitarras impecavelmente assim como as duas backing vocals em The Great Gig in the Sky. Na sequência, após Welcome to the Machine, Roger Waters apresenta três músicas de seu último disco, Déjà Vu, The Last Refugee e a brilhante Picture That, tendo sido esse talvez o momento mais sereno do show.


O primeiro ato termina com a clássica balada Wish You Were Here e com sua tríade provavelmente mais icônica. The Happiest Days of Our Lives, e Another Brick in the Wall partes 2 e 3 que foram acompanhadas por um coro de 12 crianças carentes do centro de Nossa Senhora do Carmo, de São Paulo usando camisetas com a mensagem "resist" que depois perduraria por alguns minutos no telão. Tudo isso constantemente acompanhado pelas imagens psicodélicas no telão, luzes por todo o palco e até por todo estádio e um som que faz cada osso do corpo literalmente vibrar de tão potente. Cada música um vislumbre, uma surpresa, um deleite para os olhos que é impossível de se esquecer.

No intervalo de 20 minutos, mensagens eram exibidas no telão. Ele criticou duramente figuras como Mark Zuckerberg, Benjamin Netanyahu e forças políticas como os militares, a polícia e a união "nada sagrada" entre religião e estado. Com isso, os primeiros gritos de "Ele não" começaram a vir das arquibancadas. Em seguida, denunciou a onda extremista no mundo, Waters citou políticos classificados como neofascistas, entre eles Donald Trump, Marine Le Pen e Jair Bolsonaro. O Allianz estava claramente dividido.


A volta do show foi indiscutivelmente a melhor parte. Após o telão citar uma frase de A Revolução dos Bichos (de George Orwell), a usina termelétrica de Battersea (capa do disco Animals) emerge do telão com incríveis 4 chaminés cenográficas que recriam a fábrica e como se tudo isso já não fosse de cair o queixo ainda tem a ilustre presença do porco flutuante no canto. Tudo isso para introduzir e executar a música Dogs. E durante sua maior parte instrumental, um banquete repleto de alegorias é servido no palco para os músicos, que vestem máscara de porco encenando um encontro dos poderosos fazendo uma clara referência à obra de Orwell que inspirou o disco. Em Pigs um segundo porco e ainda maior que o primeiro paira sobre a pista até finalmente ser engolido pelos fãs em absoluta euforia. O teatro simplesmente não tem fim com Roger Waters.


Voltando à Dark Side, Waters ainda toca Money e Us and Them e encerra suas músicas solo com Smell the Roses também de seu último disco. O músico britânico sabe muito bem que seus fãs querem ouvir os clássicos da época do Floyd e é o que ele dá, sem a menor cerimônia. Deixando de lado apenas duas músicas de Dark Side, o 2º ato é encerrado com Brain Damage e Eclipse acompanhado de lazers que formam o famoso prisma ocupando todo o palco. Após essa última, o telão exibe a hashtag #EleNão, gatilho para o público aplaudir e também vaiar. As vaias duraram cerca de 5 minutos e causou um nítido impacto no músico que teve que esperar os fãs se acalmarem para finalmente dizer quase timidamente "Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder não credita que a ditadura é uma coisa boa. Lembro das ditaduras da América do sul e foi feio”. Ele ainda chegou a comentar que já esperava essa reação por conta do atual momento político do Brasil.

Para finalizar, Waters ainda volta para executar Mother, com mais mensagens contra Bolsonaro, o que fez as vaias voltarem ainda mais fortes e depois encerrando com a perfeita Comfortably Numb com direto as mais lazers coloridos. É indiscutível que Roger Waters é absolutamente perfeito ao vivo. Mais do que apenas a música ele nos proporciona uma experiência sensorial nunca vista antes. Ame Pink Floyd ou odeie, o cara é um gênio e um artista.


Entretanto, conteúdo político foi exagerado. Não que seja novidade para o músico, que sempre teve posição extremamente ativa mundo afora, mas Waters brincou com fogo ao deixar 40 mil fãs divididos em um momento conturbado da nossa história. O clima de tensão criado no estádio foi chato, perigoso e desnecessário, independentemente de qualquer posição política. No que foi possivelmente sua última turnê, mais uma vez Roger Waters passa sua mensagem e traz um show épico, magistral, emocionante, deslumbrante, impecável e principalmente inesquecível para nossas memórias. Não existe espetáculo maior.