Resenha do filme "Ilha dos Cachorros"


Ilha dos Cachorros – Dir: Wes Anderson
Ilha dos Cachorros é o tipo do filme que surpreende em todos os sentidos. Para início de conversa, a direção é do já conhecido e aclamado Wes Anderson (Grande Hotel Budapeste). Ou seja, os fãs do cineasta podem contar tranquilamente com a assinatura do diretor. Planos meticulosamente simétricos, travellings laterais que marcam passagem tempo e uma história com um tom de fábula encantador.


O roteiro também de autoria de Anderson é sólido. Ele parte de uma mitologia oriental que conta a origem dos cachorros no mundo. Como eles foram tratados ao longo da história até chegarem a ser domesticados como os conhecemos na nossa vida moderna. Mas ele também nos leva um pouco mais adiante. É um futuro distópico que precisa lidar com a super-população de cães no mundo. Há os que querem simplesmente banir os cachorros da cidade mandando-os para a tal Ilha do Lixo até erradicar os bichinhos da vida humana. Como contrapeso, há os poucos ativistas que lutam pela liberdade e convivência com cachorros. E essa simples premissa funciona muito bem como partida e alvo de críticas e metáforas brilhantes.


Aqui Anderson repete o estilo de animação em stop-motion, que usou anteriormente em O Fantástico Sr. Raposo (2009). Mas em Ilha dos Cachorros Wes Anderson parte do universo oriental. Com uma história ambientada no que parece ser o Japão, (apesar de não deixar explícito) o filme carrega uma história fabulosa que trás questões sobre a relação dos humanos com cachorros, mas também consegue achar espaço para fazer críticas maduras sobre política, conflitos ideológicos com direito à metáforas, fazendo o público questionar se nós somos seres tão superiores aos cachorros como acreditamos.


E Anderson consegue juntar todos esses elementos sem se perder, se confundir ou cansar o espectador. Além disso, o filme conta com um elenco de peso para dar a voz aos personagens. Scarlett Johansson, Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Tilda Swinton e até Yoko Ono entram nessa história cativante e gostosa de assistir que agrada aos olhos tanto do espectador adulto quanto infantil.


O filme deixa claro desde o início suas intenções. Os personagens orientais falam em sua língua natal e apenas quando interessa vemos legendas, ou quando o personagem é literalmente traduzido em uma cena dentro do contexto. Pode até parecer esquisito nos primeiros minutos, mas logo você acostuma e percebe o quanto essa brincadeira faz parte do filme e mesmo de algumas piadas. O filme faz questão também de deixar claro quando o foco da cena são os diálogos dos cachorros, não fornecendo a legenda do que os humanos falam. E isso trás uma beleza única. Os cachorros falam entre si apenas, nada de humanos e cachorros conversando, o que torna tudo ainda mais interessante.


E com tantos elementos em perfeita harmonia, o longa também é recheado de referências históricas e cinematográficas. Os espectadores mais cinéfilos irão reconhecer de imediato planos e sequencias tirados quase que diretamente de grandes clássicos da sétima arte. Mais uma vez Wes Anderson prova que sabe contar uma boa fábula do seu jeito, especialmente no ramo da animação em stop-motion, considerado sempre um desafio de se produzir.
 
Ilha dos Cachorros é um filme na medida certa. Leve de forma geral, mas também sério quando precisa com pitadas de ótimas piadas e até um pouco de humor negro. Na singela opinião desse autor, a nova animação de Wes Anderson tem tudo para ser um fortíssimo candidato ao Oscar do ano que vem.

Nota - 6 estrelas

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