Elio Sant'Anna Elio Sant'Anna Author
Title: O Retorno de Macca
Author: Elio Sant'Anna
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De volta com New, seu 49° álbum, a paixão de Sir Paul McCartney por tocar ao vivo e escrever novos materiais não parece ter diminuído...



De volta com New, seu 49° álbum, a paixão de Sir Paul McCartney por tocar ao vivo e escrever novos materiais não parece ter diminuído. A lenda de 71 anos falou com Matt Wilkinson sobre sua competição com os Rolling Stones, seu amor pelo Hip-Hop e porque ele nunca vai encontrar um colaborador como John Lennon.

“ Na vida real eu tenho 8 netos, então eu cresci oficialmente. Mas eu não preciso ser avô na minha vida musical.”

Perto do lançamento de seu 49° álbum de estúdio, já podemos notar as intenções do disco. New foi gravado com quatro produtores diferentes, todos fizeram seus nomes depois dos anos 2000: Mark Ronson, Ethan Johns, Paul Epworth e Giles Martin (filho de George Martin, produtor dos Beatles).Todos falaram sobre como é trabalhar com Macca. Uma semana antes de eu me encontrar com McCartney, eu falei com cada um deles, perguntando o que ele está tentando conseguir, quase meio século depois do fim dos Beatles. Todos disseram a mesma coisa: “Eu não acho que Paul queira crescer”.

“Sim, eu acho que isso é verdade mesmo! Eu poderia ser um avô,” ele diz forçando uma voz de idoso. “Você sabe o que eu quero dizer? Mentalmente, eu não penso em mim como um cara de 71 anos, é chocante, sabe?”

Na verdade não é, porque nada mudou. Em Revolution In The Head, Ian McDonald fala sobre o papel de Paul nos Beatles, “Para McCartney, o grupo era um mundo onde ele poderia ser eternamente jovem.” “A música te liberta espiritualmente,” diz Paul. “E isso é o que eu não quero perder. Não me importo de ficar mais velho, pois provavelmente você ficará um pouco mais esperto se tiver sorte.”

Paul chega para a entrevista com a aura de alguém que saiu correndo do trabalho para chegar ao evento. Eu o esperava perto da cozinha do estúdio, e depois de ter me cumprimentado, pareceu se interessar mais pela cozinha do que pelo próprio estúdio. O que será que todos esses anos fazendo shows pelo mundo o ensinaram sobre culinária? Que o melhor Homus vem do norte do Londres. “Eu provei o Homus libanês, era OK. Tentei na Grécia, mas não era a mesma coisa. Cara, eu tenho isso e Marmite (pasta feita de extrato de leveduras, tradicional entre os britânicos) aqui comigo, você quer um pouco?

Você já deve ter ouvido a música New, produzida por Mark Ronson. Ele conheceu Paul quando ainda era muito pequeno, quando estava tendo muitos problemas tentando nadar e Macca o salvou. “Eu não me lembro muito bem disso, mas minha mãe jura que é verdade!” Diz Ronson, rindo pelo telefone. De qualquer modo, quando os dois estiveram juntos em estúdio pela primeira vez, Mark estava muito preocupado. “No primeiro dia de trabalho com o maior compositor do mundo, ele agia assim ‘Essa é uma música que eu escrevi, o que você quer fazer com ela?’. Eu ficava só pensando que não podia estragar tudo aquilo.

O mais impressionante é a ambição de Paul, e, surpreendentemente, sua insegurança. Ele vê os Rolling Stones como concorrentes, e diz que eles voltaram para a estrada para experimentarem um pouco do que ele faz ao vivo. Ele acha que seus shows são melhores que os de Beyoncé. Enquanto ele fica com medo de aparecer nos livros de história de seus netos, também usa sua nova música para apontar um conceito errado sobre seu papel com os Beatles. Também se sente intimidado pela ideia dada por sua filha Stella, de trabalhar com Thom Yorke – só pela possibilidade dele não aceitar a proposta.

Por enquanto, o censo comum sobre ‘New’ diz que McCartney tem passado nos testes. A música New soa mais jovem do que tudo que Paul lançou nos últimos anos. Alligator é igualmente sedutora, com facetas brilhantes de um homem que lidou com muitos tumultos em sua vida. “Eu quero alguém que me socorra quando eu sair dos trilhos” Ele diz, mostrando seu lado mais vulnerável, como uma antiga fase de Johnny Cash.

Everybody Out There é o ponto alto do álbum, feita para quem gosta da melhor fase de Paul. Como uma canção dos Wings, ela começa com um riff de guitarra retirado dos anos 60.
“O único modo de impedir que todos os componentes da música ficassem correndo por aí, foi colocando-os no estúdio.” Diz Giles Martin, que produziu a canção. “Foi feita para ser tocada ao vivo!” Completa Paul.

Falando nisso, o último show que Paul compareceu e gostou foi o de Kanye West e Jay Z na arena O2. “Eu esperava mesmo gostar do show, mas só comecei a curtir quando eles mostraram um aspecto de poesia urbana.”

Voltando para suas novas músicas, Paul diz que o que o motiva a fazê-las é a mesma coisa que o influenciou todos os anos, mas que elas não possuem uma fórmula. “As pessoas costumavam perguntar aos Beatles quem escrevia as letras e quem compunha as músicas, e qual era a fórmula para isso. Bom, se a gente tivesse uma fórmula, a colocaria em uma garrafa e um dia, provavelmente, ela se quebraria. Não gostaria de perde-la, por isso nem quero descobrir como faço minhas músicas.”

Isto é o que o direciona hoje, o motivo de chamar diferentes produtores para seu álbum e de ir a shows de rap: sua constante liberdade espiritual.

É incomum uma pessoa de sua idade ir em shows de rap.
Paul: Sim, mas eu estou na música, sabe? E também, se farei uma turnê, gosto de saber o que as outras pessoas estão fazendo. Eu não quero que minhas apresentações sejam ultrapassadas. Se as pessoas dizem “Caramba, o show da Beyoncé foi de demais”, eu quero ir lá e poder dizer “É, eu consigo fazer melhor”.  
 Seus contemporâneos também estão em ótima forma – Bowie, Stones, Neil Young...
Bom, alguns dos meus contemporâneos já morreram. Mas é verdade, eu entendi o que você quis dizer. Seria uma competição?
Sim – eles querem fazer disso que eu faço. Pois eu tenho saído em turnê constantemente, mas isso é o que nós fazemos. Nós tivemos muita prática e temos de
onde tirar muita música. Então se os Stones estão se dando bem, é natural que eles também façam suas turnês.
Você os viu recentemente?
Sim! Eles são ótimos! Eu sempre segui os Stones, sempre estive nos concertos. Eu os vi em Nova York, depois do show na O2. Eles estavam tocando muito bem!
E Bowie? Ele ficou afastado por tanto tempo...
(interrompe) Mmmm.. Evento Nacional.
Como você vê o seu retorno depois de ficar 10 anos desaparecido?
Esse é o único jeito de fazer. Ou morrendo. Nenhuma das duas opções são muito boas. Eu tenho muita cobertura, então não me importo muito com isso. Mas você pode passar algum tempo tocando pela América Latina e, ao voltar pra casa, ouvirá: ‘Nossa, ele não dava as caras por um bom tempo...’  
A letra da música Early Days parece falar com as pessoas que te estereotipavam como o Beatle mais afável: “Now everybody seems to have their own opinion/ Who did this and who did that/ But as for me, I don’t see how they can remember/ When they weren’t where it was at”. Isto é um pesadelo seu?
É, tipo isso. É uma coisa menor, nada que eu esteja obcecado. Mas acontece. A trajetória dos Beatles já está nos livros de hisória. Meus netos dizem: “Você estava em um livro hoje, vovô!” e você diz: “Ah não! Que vergonha!” Então você meio que gosta da ideia de que eles estão aprendendo sobre isso. Mas quando as pessoas ficam analisando aquilo tudo, eu penso: “Baseadas em quê?” Essas pessoas não estavam lá comigo e John, não viram quem fez o quê. Elas ouvem as histórias e tal, mas a coisa era bem diferente. John não chegaria simplesmente em mim e diria: (imitando a voz de Lennon) “Vamos, Paul, escreva um pouquinho de melodia, seu puto!” (agora imitando a voz que tinha quando era mais novo) “Ok, John! Que tal isso: La La La”...
Isso obviamente te irrita o suficiente para fazer uma gravação na medida certa.
É, eu achei que valeria a pena comentar sobre isso. Eu me lembro de me envolver com as pessoas que fizeram The Buddy Holly Story. Eu era muito fã dele, e seus Crickets estavam falando comigo e disseram: “Nós nem estávamos lá!” Em Nowhere Boy (O garoto de Liverpool), duas coisas me irritaram. John era mais alto do que eu, o que não era verdade! Nós tínhamos exatamente o mesmo tamanho! E depois, John me nocauteia, isso nunca aconteceu! Quero dizer, você acha que eu não me lembraria? A gente nunca chegou a este ponto! No Filme, In Spite Of All The Danger virou um apelo psicológico onde John grita por sua mãe. Não tinha nada disso, foi só uma música que a gente escreveu, no máximo seria EU gritando por minha mãe. Eu tive que aceitar que aquilo era um filme, não um documentário ou uma biografia. John virou uma lenda porque morreu tragicamente, e era uma ótima pessoa. Você não vira uma lenda sem ser bom. Mas no filme, parece que ele assumiu papeis que nunca assumiu de verdade. Talvez ele tenha feito até mais. Mas o que quero dizer é isto, como estou falando do passado, posso colocar isso tudo num verso final e grudar na cabeça das pessoas que acham que sabem mais do que eu. “Pois elas nem estavam lá”. Diariamente te perguntam sobre a morte de John e George, um assunto mórbido e triste. Isto te desanima? Não é uma coisa ruim, pode até ser uma coisa boa, porque os mantem presentes. John tem a mesma presença na minha vida agora, quanto ele tinha quando era vivo. Então isso é uma coisa boa. A coisa ruim, obviamente, é quando falo sobre seu assassinato. Mas as pessoas não se concentram muito nisso, e eu me recupero em
uma frase: “Cara, vou te dizer, que sujeito louco ele era!” E desse modo, é bom se lembrar deles.
O que você diria a ele se o encontrasse hoje?
“Vamos escrever uma música, cara! Pegue sua guitarra, vamos!”
E como os Beatles soariam se tivessem 20 anos em 2013?
Oh, isso é interessante! Acho que você deveria observar as coisas que fazíamos. Nós tentávamos fazer as mesmas coisas que ouvíamos das rádios americanas. Nós misturávamos a voz de Buddy Holly com as guitarras dos Everly Brothers, adorávamos as harmonias. Eu e John nos sentíamos como Don e Phil. Eles tinham as melhores harmonias.. Tinham mesmo! Eles eram fantásticos! Pra responder sua pergunta, acho que nós estaríamos observando as coisas que estivessem nas paradas. Não falo de coisas como Katy Perry porque não nos identificaríamos com ela, mas procuraríamos por coisas como Kings of Leon, Dylan, Neil Young. Acho que faríamos coisas assim.
Ainda optaria por uma banda antes de um som mais eletrônico?
Acho que sim, ainda seriam caras fazendo música. Acho que ficaríamos do lado de pessoas que tocam mesmo.  
Você acha difícil escrever canções?
(parcialmente ofendido) Sim!  
Honestamente? Sim, um pouco. Mas só porque já fiz muito. E você tem que fazer algo diferente depois de ter feito 5000 coisas.  
Como você pode soar diferente? Eu sigo pistas.
Você já escreveu muitas músicas. Ouvindo algo raro mas ótimo, como Goodbye, que você deu para Mary Hopkin em 1969, eu me pergunto se você se esquece dos seus matérias menos conhecidos.
Sim! Tem um período tão grande dos anos 70 que eu nem consigo te dizer o que tem nos meus álbuns daquela época. 
Sério? Sim! Porque foi um período tão confuso, pois os Beatles tinham acabado e eu não sabia o que fazer ainda. As vezes vejo os nomes de algumas faixas dos Wings e fico me perguntando como seria aquela música.  
Você vê a composição de músicas como um trabalho? Acorda cedo, senta na mesa e fica seis horas trabalhando? Sim, e isso é uma coisa legal! Ficar sozinho por alguns instantes, e se concentrar em seus pensamentos. Eu acho que é quase uma terapia. 
É um processo solitário no início? Sim, mas é legal. O resto do meu dia não é solitário. Dou entrevistas, levo minha menina pra escola, ou até faço algumas filmagens. Então, como eu fico sempre rodeado de pessoas, é legal se isolar com um violão em um quarto, ou até mesmo banheiros onde a acústica seja boa. É como se você ficasse no seu pequeno mundo de pensamentos.  
Eu diria que pessoas como Thom Yorke e Damon Albarn são os seus equivalentes de hoje, por ficarem o dia todo trabalhando no estúdio. Você já pensou em trabalhar com eles?
Trabalhar com eles? Sim, já pensei. Minha filha Stella é muito perspicaz, ela vive me dizendo: (com voz fininha) “Ligue para Thom, vá com ele para o estúdio e veja o que sai!”  
Você tem que fazer isso!
Sei lá, eu tenho um pouco de paranoia só de pensar em ligar pra ele: “Hey Thom, é o Paul! Você... o que anda fazendo? O que acha de escrever alguma coisa?” e de repente ele dizer “Na verdade, estou ocupado no momento.”  
Parece improvável... Há alguns anos, apareceram grandes rumores sobre uma parceria com Bob Dylan, e eu ainda penso nisso. Eu gostaria de fazer, mas sou mimado quando penso em colaboradores. Eu tive John, acho difícil achar um colaborador melhor que ele.
Chuck Berry, com 86 anos de idade, continua tocando. Paul já disse que se o trouxessem em uma cadeira de rodas, ainda cantaria Yesterday. Mas hoje ele está menos certo disso. “Eu vou prosseguir com esse álbum e turnê, depois vejo o que farei.” Diz Paul. “Se você quiser uma previsão , eu me vejo fazendo o que eu faço para sempre. Mas como um atleta, chega um ponto em que você não terá as condições físicas necessárias pra isso.”
Atualmente ele toca sets mais longos do que nunca, mas ele admite que pode chegar uma hora em que ele não fará mais isso. “Eu suponho que vou ficar exausto, mas ainda não estou. Mas eu nem quero pensar nisso. Vejo pessoas muito mais novas do que eu sentadas em frente a TV o dia inteiro. Eu não sei bem que tipo de vida eu quero levar, mas posso pensar em coisas melhores do que esta! Eu acho que ainda vou continuar, me sinto cheio de energia. Eu realmente estou aproveitando.
Nossa hora terminou. Paul desce para o estúdio e nos despedimos. No que será que ele vai trabalhar o resto da tarde? “Só ficarei mexendo no Cubase, eu adoro!” Aí vem a resposta esperada de Paul, seguida de uma piscada. “Eu não trabalho em uma fábrica de suínos.”

Fonte: Paul, Get Back to SP(TRADUÇÃO - Daniel Generalli) e NME Digital

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