Elio Sant'Anna Elio Sant'Anna Author
Title: Por que os Beatles? Por Barry Miles
Author: Elio Sant'Anna
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Este belíssimo texto que vocês conferem a seguir, foi escrito com a propriedade de quem sabe o que diz. É o capítulo final que encerra ...
Este belíssimo texto que vocês
conferem a seguir, foi escrito
com a propriedade de quem sabe
o que diz. É o capítulo final que
encerra o livro "O Diário dos
Beatles" de Barry Miles. Um
trabalho primoroso digno de
todos os méritos. Parabéns Barry
Miles!
"Todos os anos, vários grupos de
música pop e rock recebem
Grammys, Brits e discos de
platina, mas os Beatles continuam
a ser a referência pela qual o
sucesso de todos é medido.
Graças ao contínuo crescimento
da indústria musical global,
muitos dos recordes de venda
estabelecidos pelos Beatles foram
ultrapassados; contudo, nenhuma
banda chegou a ser considerada
"maior que os Beatles" ou mesmo
"os novos Beatles", e isso nunca
acontecerá, pois ser "maior que
os Beatles" é um patamar
inatingível. Suas conquistas nunca
deixarão de ser excepcionais em
virtude do contexto e da forma
como foram atingidas.
A imprensa não tarda em
comparar o sucesso de grupos de
rock e pop com os dos Beatles,
mesmo quando se trata de bandas
que tiveram uma carreira
efémera, como, por exemplo, as
Spice Girís; cinco garotas
ousadas, cujo primeiro álbum e
compactos lançados simul­
taneamente venderam milhões de
cópias em vários países. Mesmo
assim, nem elas ou qualquer
outro grupo gostaria de ser
comparado aos Beatles. Como
poderiam elas ser igualadas aos
Fab Four, tendo lançado apenas
um álbum? Essa é uma
comparação totalmente
descabida. Certamente, "maior
que os Beatles" é um chamariz
que ajuda a aumentar as vendas
dos tabloides, (apesar de que o
uso constante da frase só faz
crescer a aura de sucesso
inabalável dos Beatles). A maior
parte dos que são brevemente
igualados aos Beatles começa e
termina sua carreira como "boy
bands", grupos de rapazes que
cantam e dançam música pop,
que, em sua maioria, nem sequer
sabem tocar um instrumento
musical, quanto   mais
compor suas próprias músicas -
seus shows ao vivo se resumem a
danças atléticas, durante os quais
cantam acompanhando
playbacks. Normalmente, os
catálogos dessas bandas ficam
estagnados durante 12 meses até
seu completo desaparecimento.
Quanto valeria hoje o catálogo de
The Monkees, The Osmonds, The
Bay City Rollers, Duran Duran,
Kajagoogoo, Wham!, A-Ha, Bros,
New Kids On The Block, Brother
Beyond ou mesmo Take That? De
nada vale, também, comparar o
sucesso dos Beatles a bandas do
calibre de R.E.M, U2 ou Bruce
Springsteen, que, apesar de
lotarem estádios, levaram anos
para alcançar o sucesso. Muito
embora esses artistas tenham
produzido praticamente o mesmo
número de álbuns que os Beatles
e seus recordes de vendas de
discos e ingressos se equipararem
aos dos rapazes de Liverpool, eles
demoraram pelo menos três vezes
mais para chegar a esse ponto em
sua carreira. É verdade que se
mantiveram íntegros dentro de
uma indústria que só visa mais e
mais ao lucro, mas nem o R.E.M.,
o U2 ou Bruce Springsteen jamais
causaram nenhuma mudança
significativa ou atraíram mais de
algumas dezenas de ias ao
Heathrow Airport.
Hoje, parece-me que qualquer
banda que se torne famosa
rapidamente recebe o rótulo de
"os novos Beatles", ignorando o
fato de que pelo menos três deles
tocaram juntos durante quase
quatro anos antes de entrarem
em um estúdio de gravação.
Nesse meio-tempo, tiveram de
dar duro para poder ganhar
alguns trocados, apresentando-se
ao vivo. É pouco provável que
qualquer grupo atual, incluindo o
R.E.M. e o U2, conseguisse tocar
junto durante quatro anos antes
de começar a gravar, apesar de
Bruce Springsteen ter batalhado
muito em New Jersey antes de
atingir o sucesso. Entre as bandas
contemporâneas dos Beatles,
apenas três dos rapazes do The
Who também conseguiram viver
quatro anos à custa do que
ganhavam com as apresentações
ao vivo, antes de começarem a
gravar - mesmo assim, eles
lançaram somente quatro álbuns
na década de 1960, ao passo que
os Beatles lançaram 12. Em
comparação, menos de seis meses
se passaram entre a formação dos
Rolling Stones, os principais rivais
dos Beatles, e o início das sessões
de gravação de seu primeiro
compacto. Sem sombra de
dúvida, os Beatles produziram
seus discos sob condições
extraordinárias, que
provavelmente nunca se
repetirão. É inacreditável que,
apesar de contarem com
equipamentos de gravação
ultrassofisticados, as gravadoras
multinacionais atuais ainda não
têm condições de gravar dois
álbuns do mesmo artista no
mesmo ano, e, também, não estão
dispostas a gravar compactos que
não contenham músicas que
façam parte desses álbuns, que
são normalmente lançados a cada
três anos, pois eles não podem
ser usados como material
promocional. Ainda há mais um
ponto que merece nossa atenção:
atualmente os cinco compactos
nos primeiros lugares das paradas
de sucesso não alcançam o total
de 100 mil cópias vendidas, ao
passo que os Beatles, em seus
dias de glória, atingiam mais de 1
milhão de cópias em pedidos
antecipados, somente no Reino
Unido! A banda Oásis, de
Manchester, tem feito muito
sucesso, mas dificilmente
conseguirá que mais de 2 mil
artistas gravem qualquer uma de
suas canções, Nenhuma banda
moderna será capaz de ter uma
influência tão abrangente quanto
a dos Beatles. Voltando às versões
gravadas por outros artistas, os
Beatles tiveram suas canções
interpretadas por ninguém menos
que estrelas como Ella Fitzgerald,
Sinatra, Ray Charles, Fats Domino
e Peggy Lee e até pela banda
Laibach, que criou uma versão
trash metal do álbum Let It Be.
Não podemos deixar de
mencionar a cantora Cathy
Berberian, que gravou
Beatles'Árias, um álbum de
canções dos Beatles com uma
roupagem operística, que incluía
bandas de metais, quartetos de
cordas e callíopes. Os Beatles
ainda exercem tanta influência
que muitas bandas nem percebem
que estào sendo inspiradas por
eles. No auge de sua fama, em
1965, influenciaram um grande
número de artistas da época: de
Brian Jones, em seu período
Rolling Stones (em especial, no
uso da cítara e no álbum Satanic
Ma/esties, uma cópia de Sgt
Pepper), passando por Donovan,
The Kinks, até todos os grupos
pop que passaram a produzir
trabalhos mais elaborados e
duradouros, motivados pelos
progressos e experimentos feitos
pelos Beatles. Antes do final da
década de 1960, seus arranjos
vocais inspiravam a todos, desde
The Hollies aos Bee Gees e, no
finai dessa década, seu impacto
musical foi disseminado pela
banda ELO, Electric Light
Orquestra, que usou as
composições psicodélicas dos
Beatles como base para seu
trabalho. Outra faceta de sua
obra, que é digna de nota, são as
guitarras pesadas do White
Álbum, muito usadas pelo Led
Zeppelin, que possui um lado
Beatle que poucos imaginam; e
por Syd Barrett, no início da,
então, excêntrica banda Pink
Floyd. Não há ninguém que não
fosse tocado por eles. Basta
observar o trabalho de The Byrds,
The Beach Boys e Buffalo
Springfieíd - citando apenas as
bandas cujo nome começa com
"B"' - para perceber o que
significou a invasão britânica para
os norte-americanos. O interesse
na obra dos Beatles permanece
mais elevado do que a de
qualquer de seus
contemporâneos, tanto assim que
seu catálogo completo ainda é
editado e vendido a preços
atuais, e os fâs sempre querem
mais. O quarteto de Liverpool
possui o maior número de co-
lecionadores de todos os tempos
e de discos pirata. Desde sua
dissolução, os advogados e os
empresários responsáveis por
seus interesses têm controlado
com mãos de ferro tudo o que foi
produzido pelo grupo. Apesar de
Paul e Yoko, a viúva de John,
terem perdido o controle da
editora musical, ambos (além de
George e Ringo) conseguiram re­
verter a relação de amo e
escravos que tinham com a EMI
nos anos de 1960, e hoje os amos
são eles. Provavelmente, todos
esses fatos expliquem por que a
série Anthology, com três CDs
duplos lançados em 1996,
contendo gravações alternativas,
algumas raras, outras não
aproveitadas nos álbuns
anteriores da banda, juntamente
com a coleção de vídeos em oito
volumes, tenha vendido tanto,
alcançando a soma aproximada
de 400 milhões de dólares. Esse
valor foi dividido entre os três
Beatles e Yoko, tornando-os, em
1996, quase 40 anos após o
primeiro encontro de John com
Paul na quermesse em Walton,
parte do rol dos artistas mais
bem pagos do mundo, perdendo
apenas para Oprah Winfrey e
Steven Spielberg.
Independentemente de suas
conquistas musicais, esse
numerário por si só mostra por
que os Beatles continuam a ser a
referência pela qual o sucesso de
todos os outros músicos é e
sempre será medido - e por que
ninguém nunca será ''maior que
os Beatles".
Fonte: http://obaudoedu.blogspot.com.br/2012/12/por-que-os-beatles-by-barry-miles.html?m=1

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